Padre Silveiro de Paraopeba (1763-1843)
Fábula do morro do ramos
QUAL Dom Quixote
No Rocinante,
Já cavalleiro
Me fiz andante.
Apenas raia
A luz Phebea,
Não busco encantos
De Dulcinea.
A estrada busco
De Villa Rica,
Que doze leguas
Distante fca,
Só por beijar
Neste almo dia
A mao piedosa
D'alta Maria.
Passo a Itabira,
Passo a Caxoeira,
E a mesma Serra
Subo à carreira.
Aonie o Conde
De Cavalleiros
Deixou a forte
Aos passageiros;
Que ali descanção
junto à corrente
Quando as abraza
A calma artente,
Logo presago
Meo coração
Cá palpitou-me
Nem era em vão.
Porque chegando
Ao fim da Serro,
Ouço hum ruido,
Que alli me aterra.
De espessa gruta
Do Sol isenta,
Figura horrenda
Se me apresenta
Tostado o corpo
tinha a faura.
Mais de mil palmos
Tinha de altura.
Os alhos fundos,
Faci chupadas,
As barbas brancas
As mãos mirradas
Mal se apresenta
Pasma o cavalo;
Cheio de espanto
Assim lhe falo
“Quem hes, me dize,
“O’ monstro horrendo”
Mal lhe pergunto
Fiquei tremendo
Depois de hum pouco
Estar calado,
Como quem soffre
Hum mal pesado:
Abrindo a boca ,
Onde se vão
Trez velhos dentos,
Que já bolião:
Alçando aos ares
A carantonha,
Com voz cansada,
Porém medonha:
Sou Ramos, disse,
Filho da Terra :
Que aos altos Deoses
Tambem fiz guerra.
Com Villa Rica
Tomei amores,
Que hoje me causão
Maguas maiores.
Ella me fez
O leito doiro,
E fez-me entrega
Do seu thesouro.
Vivia farto, Alegre, e cheio,
E dos amores
Em doce enteio.
Porém os Deoses,
Que. se agravarao,
Logo a soberba
Me castigarão.
Neste alto morro
Precipitado,
Por meo castigo
Fui transformado.
Meus longos ossos,
Que aqui jazerao ,
Em duas pedras
Se converterão.
Por maior pena
Maior castigo
Tenho a velloso
Por inimigo.
Elle me estruges
Elle me aterra,
Fazendo sempre
Continua guerras
Águdos ferros.
Forcas extranhas,
Me vão rompendo
Estas estranhas.
Tenho de fronte
A minha bella;
Mas ah! Não posse
Chegar-me a ella.
Deito-lhe os olhos,
Votos lhe offreço,
Nem hum aceno
Sequer mereço.
Nos seus ouvidos
Por meus suspiros;
Soão medonhos
Morrendos tiros.
Lágrimas tristes
Correndo em fio;
Nas repuchadas
Daqui lhe envio.
Porém debalde
Suspiro, e chóro,
Por essa imagem,
q'inda hoje adóro.
Entre praseres
De mim se esquece,
Ou por enórme
Me desconhece.
Pois que com ella
Fallar nao posso ,
Pelo destino
Ou fado nosso :
Dize-lhe que hoje,
Bem que se occulta
O sea amante
Tambem exalta.
Que pois lhe pede
Como em penhor
Do seo antigo
Fiel amor:
Que desse nobre
Metal luzente
Que do seu seio
Vai na corrente,
Hum padrão alto
Mande erigir,
Onde estas letras
Faça insculpir :
Apar, de Pedro,
Com alegria
Por longos anos,
Viva Maria.
PARAOPEBA, Silveiro de. “Fabula dos morro dos ramos”. In: BARBOSA, Januário da Cunha (org). Parnaso brasileiro, ou Coleção das melhores poesias dos poetas do Brasil, tanto inéditas, como já impressas. Rio de Janeiro, RJ: Tipografia Imperial e Nacional, 1829. p.63-66.
Projeto de Pesquisa: Tradição e ruptura na poesia de senhor de engenho: imagens da mulher (FALE/ILC/UFPA)
Coordenadora: Profa. Dra. Angela Teodoro Grillo
Bolsista: Fabrícia Paraíso de Araújo (PIBIC/ UFPA)