Mil Marias: Grupo de Pesquisa de Imagens da Mulher na Poesia de Língua Portuguesa (FALE/ ILC/ UFPA/ CNPq)                         

 

Alphonsus de Guimaraens (1870-1921)


Marca d'água

A dor de quem recorda os tempos idos

 


A dor de quem recorda os tempos idos
Fere como um punhal envenenado.
São vozes mudas, últimos balidos
Do cordeiro angustioso do passado.

Choram em sonho os olhos doloridos
Das virgens mortas antes do noivado.
E sentimos na concha dos ouvidos
As árias de quem muito foi amado.

Oh luares ermos pelas sepulturas!
Noites infindas de astros, onde esvoaça
A asa da morte suavemente fria!

Beijais do rosto dela as linhas puras.
Ela sorri: pelos seus lábios passa
A alma das rosas que lhe dei um dia.


GUIMARAENS, Alphonsus de. “A dor de quem recorda os tempos idos”. In: Melhores Poemas Alphonsus de Guimaraens. 1 ed. São Paulo: Global Editora, 2013, p. 100.

 


Marca d'água

É uma lua de acompanhar-se enterros

 


É uma lua de acompanhar-se enterros,
De ver caixões banhados de luz branca.
Caminham virgens nuas pelos cerros,
E o luar é um rio ideal que não se estanca.

Afunda-se entre as nuvens o minguante.
Na treva a terra sonha, o céu é mudo...
Ai pobre, ai pobre cavaleiro andante,
No céu, no céu perdeste o teu escudo!


GUIMARAENS, Alphonsus de. “É uma lua de acompanhar-se enterros”. In: Melhores Poemas Alphonsus de Guimaraens. 1 ed. São Paulo: Global Editora, 2013, p. 65.

 

Projeto de Pesquisa: Tradição e ruptura na poesia de senhor de engenho: imagens da mulher (FALE/ILC/UFPA)
Coordenadora: Profa. Dra. Angela Teodoro Grillo
Bolsista: Ana Lígia Rodrigues Drago (Universal/CNPq)