Eva
Traz um destino de beleza
e de alegria.
Não foi em vão que a natureza
lhe deu, com a graça que irradia,
o dom de transformar ambientes
em ninhos veludosos, quentes,
que são oasis para o corpo
e para a alma confôrto.
(Aquela que por um beijo
cultiva rendas no seu tear
e, ao mesmo ensejo,
tem gestos lindos para acariciar.)
Traz um destino de sonho, poesia,
inocência.
Não é em vão que à evanescência
do seu talhe esbelto de ave
trai a mística, inefável
nostalgia
de um anjo que aspirasse à paisagem do céu.
(Aquela que sob o véu
de uma candura imaculada
viu, nos seus êxtases tranquilos,
a estrêla da madrugada
pairar sobre um jardim de lírios.)
Tem um destino de bênção, de paz,
e mansuetude.
Não é em vão que traz
na música da voz o timbre doce,
propício ao bem que não ilude.
(Aquela de quem se ouve
à hora da luta uma palavra ideal.
E cuja sombra mansa
se abriu após o vendaval
como um prenúncio de bonança.)
Tem um destino de bondade
e de fecundidade.
Não foi em vão que Deus a fez
ao espelho da terra
(e que espelho mais puro?)
em cujas leis
se encerra
tôda a esperança do futuro
em cada nova primavera viva.
(Aquela que não se esquiva
ao sacrifício promissor
e, depois de ser flor,
- árvore ao sol - também deu fruto,
dignificando o seu tributo
de amor.
Aquela que inspiradora,
virginal,
maternal,
consoladora,
resume o sonho e a plenitude do homem.)
LISBOA, Henriqueta. “Eva”. In: Prisioneira da noite. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira S/A, 1941, p. 35.