Vinicius de Moraes (1913-1980)
A legião dos Úrias
Quando a meia-noite surge nas estradas vertiginosas das montanhas
Uns após outros, beirando os grotões enluarados sobre cavalos lívidos
Passam olhos brilhantes de rostos invisíveis na noite
Que fixam o vento gelado sem estremecimento.
São os prisioneiros da Lua. Às vezes, se a tempestade
Apaga no céu a languidez imóvel da grande princesa
Dizem os camponeses ouvir os uivos tétricos e distantes
Dos Cavaleiros Úrias que pingam sangue das partes amaldiçoadas.
São os escravos da Lua. Vieram também de ventres brancos e puros
Tiveram também olhos azuis e cachos louros sobre a fronte...
Mas um dia a grande princesa os fez enlouquecidos, e eles foram escurecendo
Em muitos ventres que eram também brancos mas que eram impuros.
E desde então nas noites claras eles aparecem
Sobre cavalos lívidos que conhecem todos os caminhos
E vão pelas fazendas arrancando o sexo das meninas e das mães sozinhas
E das éguas e das vacas que dormem afastadas dos machos fortes.
Aos olhos das velhas paralíticas murchadas que esperam a morte noturna
Eles descobrem solenemente as netas e as filhas deliqüescentes
E com garras fortes arrancam do último pano os nervos flácidos e abertos
Que em suas unhas agudas vivem ainda longas palpitações de sangue.
Depois amontoam a presa sangrenta sob a luz pálida da deusa
E acendem fogueiras brancas de onde se erguem chamas desconhecidas e
(fumos
Que vão ferir as narinas trêmulas dos adolescentes adormecidos
Que acordam inquietos nas cidades sentindo náuseas e convulsões mornas.
E então, após colherem as vibrações de leitos fremindo distantes
E os rinchos de animais seminando no solo endurecido
Eles erguem cantos à grande princesa crispada no alto
E voltam silenciosos para as regiões selvagens onde vagam.
Volta a Legião dos Úrias pelos caminhos enluarados
Uns após outros, somente os olhos, negros sobre cavalos lívidos
Deles foge o abutre que conhece todas as carniças
E a hiena que já provou de todos os cadáveres.
São eles que deixam dentro do espaço emocionado
O estranho fluido todo feito de plácidas lembranças
Que traz às donzelas imagens suaves de outras donzelas.
E traz aos meninos figuras formosas de outros meninos.
São eles que fazem penetrar nos lares adormecidos
Onde o novilúnio tomba como um olhar desatinado
O incenso perturbador das rubras vísceras queimadas
Que traz à irmã o corpo mais forte da outra irmã.
São eles que abrem os olhos inexperientes e inquietos
Das crianças apenas lançadas no regaço do mundo
Para o sangue misterioso esquecido em panos amontoados
Onde ainda brilha o rubro olhar implacável da grande princesa.
Não há anátema para a Legião dos Cavaleiros Úrias
Passa o inevitável onde passam os Cavaleiros Úrias
Por que a fatalidade dos Cavaleiros Úrias?
Por que, por que os Cavaleiros Úrias?
Oh, se a tempestade boiasse eternamente no céu trágico
Oh, se fossem apagados os raios da louca estéril
Oh, se o sangue pingado do desespero dos Cavaleiros Úrias
Afogasse toda a região amaldiçoada!
Seria talvez belo – seria apenas o sofrimento do amor puro
Seria o pranto correndo dos olhos de todos os jovens
Mas a Legião dos Úrias está espiando a altura imóvel
Fechai as portas, fechai as janelas, fechai-vos meninas!
Eles virão, uns após outros, os olhos brilhando no escuro
Fixando a lua gelada sem estremecimento
Chegarão os Úrias, beirando os grotões enluarados sobre cavalos lívidos
Quando a meia-noite surgir nas estradas vertiginosas das montanhas.
Rio de Janeiro, 1935
MORAES, Vinicius de. “A legião dos Úrias”.In: O Sentimento do Sublime. In: Vinicius de Moraes: Poesia Completa e Prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1998, p. 58.
A mulher que passa
A mulher que passa
Meu Deus, eu quero a mulher que passa.
Seu dorso frio é um campo de lírios
Tem sete cores nos seus cabelos
Sete esperanças na boca fresca!
Oh! como és linda, mulher que passas
Que me sacias e suplicias
Dentro das noites, dentro dos dias!
Teus sentimentos são poesia
Teus sofrimentos, melancolia.
Teus pêlos leves são relva boa
Fresca e macia.
Teus belos braços são cisnes mansos
Longe das vozes da ventania.
Meu Deus, eu quero a mulher que passa!
Como te adoro, mulher que passas
Que vens e passas, que me sacias
Dentro das noites, dentro dos dias!
Por que me faltas, se te procuro?
Por que me odeias quando te juro
Que te perdia se me encontravas
E me encontrava se te perdias?
Por que não voltas, mulher que passas?
Por que não enches a minha vida?
Por que não voltas, mulher querida
Sempre perdida, nunca encontrada?
Por que não voltas à minha vida?
Para o que sofro não ser desgraça?
Meu Deus, eu quero a mulher que passa!
Eu quero-a agora, sem mais demora
A minha amada mulher que passa!
No santo nome do teu martírio
Do teu martírio que nunca cessa
Meu Deus, eu quero, quero depressa
A minha amada mulher que passa!
Que fica e passa, que pacifica
Que é tanto pura como devassa
Que bóia leve como a cortiça
E tem raízes como a fumaça.
MORAES, Vinicius de. “A mulher que passa”. In: Vinicius de Moraes: Poesia Completa e Prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1998, p. 93.
A que há de vir
A que há de vir
Aquela que dormirá comigo todas as luas
É a desejada de minha alma.
Ela me dará o amor do seu coração
E me dará o amor da sua carne.
Ela abandonará pai, mãe, filho, esposo
E virá a mim com os peitos e virá a mim com os lábios Ela é a querida da
minha alma
Que me fará longos carinhos nos olhos
Que me beijará longos beijos nos ouvidos
Que rirá no meu pranto e rirá no meu riso.
Ela só verá minhas alegrias e minhas tristezas Temerá minha cólera e se
aninhará no meu sossego Ela abandonará filho e esposo
Abandonará o mundo e o prazer do mundo
Abandonará Deus e a Igreja de Deus
E virá a mim me olhando de olhos claros
Se oferecendo à minha posse
Rasgando o véu da nudez sem falso pudor
Cheia de uma pureza luminosa.
Ela é a amada sempre nova do meu coração
Ela ficará me olhando calada
Que ela só crerá em mim
Far-me-á a razão suprema das coisas.
Ela é a amada da minha alma triste
É a que dará o peito casto
Onde os meus lábios pousados viverão a vida do seu coração Ela é a minha
poesia e a minha mocidade
É a mulher que se guardou para o amado de sua alma. Que ela sentia vir
porque ia ser dela e ela dele.
Ela é o amor vivendo de si mesmo.
É a que dormirá comigo todas as luas
E a quem eu protegerei contra os males do mundo.
Ela é a anunciada da minha poesia
Que eu sinto vindo a mim com os lábios e com os peitos E que será minha,
só minha, como a força é do forte e a poesia é do poeta.
Rio de Janeiro, 1933
MORAES, Vinicius de. “A que há de vir”.In: Forma e Exegese. In: Vinicius de Moraes: Poesia Completa e Prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1998, p. 26.
A queda
Tu te abaterás sobre mim querendo domar-me mas eu te resistirei Porque a
minha natureza é mais poderosa do que a tua.
Ao meu abraço procurarás condensar-te em força – eu te olharei apenas
Mansamente alisarei teu dorso frio e ao meu desejo hás de moldar-te E ao
sol te abrirás toda para as núpcias sagradas.
Hás de ser mulher para o homem
E em grandes brados espalharás amor ao céu azul e ao ouro das matas.
Eu ficarei de braços erguidos para os teus seios de pedra E escorrerá como
um arrepio pelo teu corpo líquido um beijo para os meus (olhos
Na poeira de luz que se levantará como incenso em ondas Descerás teus
cabelos cheios para ungir-me os pés.
No instante as libélulas voarão paradas e o canto dos pássaros vibrará
(suspenso
E todas as árvores tomarão forma de corpos em aleluia.
Depois eu partirei como um animal de beleza, pelas montanhas E teu pranto
de saudade estará nos meus ouvidos em todas as caminhadas.
Rio de Janeiro, 1935
MORAES, Vinicius de. “A queda”. In: Vinicius de Moraes: Poesia Completa e Prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1998, p. 53.
A uma mulher
Quando a madrugada entrou eu estendi o meu peito nu sobre o teu peito
Estavas trêmula e teu rosto pálido e tuas mãos frias E a angústia do regresso
morava já nos teus olhos.
Tive piedade do teu destino que era morrer no meu destino Quis afastar por
um segundo de ti o fardo da carne Quis beijar-te num vago carinho
agradecido.
Mas quando meus lábios tocaram teus lábios
Eu compreendi que a morte já estava no teu corpo E que era preciso fugir
para não perder o único instante Em que foste realmente a ausência de
sofrimento Em que realmente foste a serenidade.
Rio de Janeiro, 1933
MORAES, Vinicius de. “A uma mulher”.In: Forma e Exegese. In: Vinicius de Moraes: Poesia Completa e Prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1998, p. 28.
A volta da mulher morena
Meus amigos, meus irmãos, cegai os olhos da mulher morena Que os olhos
da mulher morena estão me envolvendo E estão me despertando de noite.
Meus amigos, meus irmãos, cortai os lábios da mulher morena Eles são
maduros e úmidos e inquietos
E sabem tirar a volúpia de todos os frios.
Meus amigos, meus irmãos, e vós que amais a poesia da minha alma Cortai
os peitos da mulher morena
Que os peitos da mulher morena sufocam o meu sono E trazem cores tristes
para os meus olhos.
Jovem camponesa que me namoras quando eu passo nas tardes Traze-me
para o contato casto de tuas vestes Salva-me dos braços da mulher morena
Eles são lassos, ficam estendidos imóveis ao longo de mim São como raízes
recendendo resina fresca
São como dois silêncios que me paralisam.
Aventureira do Rio da Vida, compra o meu corpo da mulher morena Livra-me do seu ventre como a campina matinal Livra-me do seu dorso como a
água escorrendo fria.
Branca avozinha dos caminhos, reza para ir embora a mulher morena Reza
para murcharem as pernas da mulher morena Reza para a velhice roer
dentro da mulher morena Que a mulher morena está encurvando os meus
ombros E está trazendo tosse má para o meu peito.
Meus amigos, meus irmãos, e vós todos que guardais ainda meus últimos
cantos
Dai morte cruel à mulher morena!
Rio de Janeiro, 1935
MORAES, Vinicius de. “A volta da mulher morena”. In: Vinicius de Moraes: Poesia Completa e Prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1998, p. 52.
Agonia
No teu grande corpo branco depois eu fiquei.
Tinha os olhos lívidos e tive medo.
Já não havia sombra em ti – eras como um grande deserto de areia
Onde eu houvesse tombado após uma longa caminhada sem noites.
Na minha angústia eu buscava a paisagem calma
Que me havias dado tanto tempo
Mas tudo era estéril e mostruoso e sem vida
E teus seios eram dunas desfeitas pelo vendaval que passara.
Eu estremecia agonizando e procurava me erguer
Mas teu ventre era como areia movediça para os meus dedos.
Procurei ficar imóvel e orar, mas fui me afogando em ti mesma
Desaparecendo no teu ser disperso que se contraía como a voragem.
Depois foi o sono, o escuro, a morte.
Quando despertei era claro e eu tinha brotado novamente
Vinha cheio do pavor das tuas entranhas.
Rio de Janeiro, 1935
MORAES, Vinicius de. “Agonia”.In: O Sentimento do Sublime. In: Vinicius de Moraes: Poesia Completa e Prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1998, p. 57.
Alba
Alba, no canteiro dos lírios estão caídas as pétalas de uma rosa cor de
sangue Que tristeza esta vida, minha amiga…
Lembras-te quando vínhamos na tarde roxa e eles jaziam puros E houve um
grande amor no nosso coração pela morte distante?
Ontem, Alba, sofri porque vi subitamente a nódoa rubra entre a carne pálida
(ferida
Eu vinha passando tão calmo, Alba, tão longe da angústia, tão suavizado
Quando a visão daquela flor gloriosa matando a serenidade dos lírios entrou
(em mim
E eu senti correr em meu corpo palpitações desordenadas de luxúria.
Eu sofri, minha amiga, porque aquela rosa me trouxe a lembrança do teu
sexo (que eu não via
Sob a lívida pureza da tua pele aveludada e calma Eu sofri porque de
repente senti o vento e vi que estava nu e ardente E porque era teu corpo
dormindo que existia diante de meus olhos.
Como poderias me perdoar, minha amiga, se soubesses que me aproximei
da (flor como um perdido
E a tive desfolhada entre minhas mãos nervosas e senti escorrer de mim o
sêmen da minha volúpia?
Ela está lá, Alba, sobre o canteiro dos lírios, desfeita e cor de sangue Que
destino nas coisas, minha amiga!
Lembras-te, quando eram só os lírios altos e puros?
Hoje eles continuam misteriosamente vivendo, altos e trêmulos Mas a
pureza fugiu dos lírios como o último suspiro dos moribundos Ficaram
apenas as pétalas da rosa, vivas e rubras como a tua lembrança Ficou o
vento que soprou nas minhas faces e a terra que eu segurei nas (minhas
mãos.
Rio de Janeiro, 1935
MORAES, Vinicius de. “Alba”. In: Vinicius de Moraes: Poesia Completa e Prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1998, p. 60.
Balada da Maria
Não sei o que me angustia
Tardiamente; em meu peito
Vive dormindo perfeito
O sono dessa agonia...
Saudades tuas, Maria?
Na volúpia de uma flora
Úmida, pecaminosa
Nasceu a primeira rosa
Fria...
Perdi o prazer da hora.
Mas se num momento cresce
O sangue, e me engrossa a veia
Maria, que coisa feia!
Todo o meu corpo estremece...
E dos colmos altos, ricos
Em resinas odorantes
Pressinto o coito dos micos
E o amor das cobras possantes.
No mundo há tantos amantes...
Maria...
Cantar-te-ei brasileiro:
Maria, sou teu escravo!
A rosa é a mulher do cravo…
Dá-me o beijo derradeiro?
– Cobrir-te-ei de pomada
Do pólen das flores puras
E te fecundarei deitada
Num chão de frutas maduras
Maria... e morangos, quantos!
E tu que adoras morango!
Dormirás sobre agapantos...
– Fingirei de orangotango!
Não queres mesmo, Maria?
No lombo morno dos gatos
Aprendi muita carícia...
Para fazer-te a delícia
Só terei gestos exatos.
E não bastasse, Maria...
MORAES, Vinicius de. “Balada da Maria”. In: Vinicius de Moraes: Poesia Completa e Prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1998, p. 107.
Carne
Que importa se a distância estende entre nós léguas e léguas Que importa se
existe entre nós muitas montanhas?
O mesmo céu nos cobre
E a mesma terra liga nossos pés.
No céu e na terra é tua carne que palpita
Em tudo eu sinto o teu olhar se desdobrando
Na carícia violenta do teu beijo.
Que importa a distância e que importa a montanha Se tu és a extensão da
carne
Sempre presente?
Rio de Janeiro, 1933
MORAES, Vinicius de. “Carne”.In: Forma e Exegese. In: Vinicius de Moraes: Poesia Completa e Prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1998, p. 27.
Elegia desesperada
Alguém que me falasse do mistério do Amor
Na sombra – alguém! alguém que me mentisse
Em sorrisos, enquanto morriam os rios, enquanto morriam As aves do céu!
e mais que nunca
No fundo da carne o sonho rompeu um claustro frio Onde as lúcidas irmãs
na branca loucura das auroras Rezam e choram e velam o cadáver gelado ao
sol!
Alguém que me beijasse e me fizesse estacar
No meu caminho – alguém! – as torres ermas
Mais altas que a lua, onde dormem as virgens Nuas, as nádegas crispadas
no desejo
Impossível dos homens – ah! deitariam a sua maldição!
Ninguém... nem tu, andorinha, que para seres minha Foste mulher alta,
escura e de mãos longas...
Revesti-me de paz? – não mais se me fecharão as chagas Ao beijo ardente
dos ideais – perdi-me
De paz! sou rei, sou árvore
No plácido país do Outono; sou irmão da névoa Ondulante, sou ilha no
gelo, apaziguada!
E no entanto, se eu tivesse ouvido em meu silêncio uma voz De dor, uma
simples voz de dor... mas! fecharam-me As portas, sentaram-se todos à
mesa e beberam o vinho Das alegrias e penas da vida (e eu só tive a lua
Lívida, a lésbica que me poluiu da sua eterna Insensível polução...). Gritarei
a Deus? – ai dos homens!
Aos homens? – ai de mim! Cantarei
Os fatais hinos da redenção? Morra Deus
Envolto em música! – e que se abracem
As montanhas do mundo para apagar o rasto do poeta!
***
E o homem vazio se atira para o esforço desconhecido Impassível. A treva
amarga o vento. No silêncio Troa invisível o tantã das tribos bárbaras
E descem os rios loucos para a imaginação humana.
Do céu se desprende a face maravilhosa de Canópus Para o muito fundo da
noite... – e um grito cresce desorientado Um grito de virgem que arde... – na
copa dos pinheiros Nem um piar de pássaro, nem uma visão consoladora da
lua.
É o instante em que o medo poderia ser para sempre Em que as planícies se
ausentam e deixam as entranhas cruas da terra Para as montanhas, a
imagem do homem crispado, correndo É a visão do próprio desespero
perdido na própria imobilidade.
MORAES, Vinicius de. “A partida”. In: Vinicius de Moraes: Poesia Completa e Prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1998, p. 131.
Ilha do Governador
Esse ruído dentro do mar invisível são barcos passando Esse ei-ou que ficou
nos meus ouvidos são os pescadores esquecidos Eles vêm remando sob o
peso de grandes mágoas Vêm de longe e murmurando desaparecem no
escuro quieto.
De onde chega essa voz que canta a juventude calma?
De onde sai esse som de piano antigo sonhando a "Berceuse"?
Por que vieram as grandes carroças entornando cal no barro molhado?
Os olhos de Susana eram doces mas Eli tinha seios bonitos Eu sofria junto
de Suzana – ela era a contemplação das tardes longas Eli era o beijo ardente
sobre a areia úmida.
Eu me admirava horas e horas no espelho.
Um dia mandei: "Susana, esquece-me, não sou digno de ti – sempre teu…"
Depois, eu e Eli fomos andando… – ela tremia no meu braço Eu tremia no
braço dela, os seios dela tremiam A noite tremia nos ei-ou dos pescadores…
Meus amigos se chamavam Mário e Quincas, eram humildes, não sabiam
Com eles aprendi a rachar lenha e ir buscar conchas sonoras no mar fundo
Comigo eles aprenderam a conquistar as jovens praianas tímidas e risonhas.
Eu mostrava meus sonetos aos meus amigos – eles mostravam os grandes
(olhos abertos
E gratos me traziam mangas maduras roubadas nos caminhos.
Um dia eu li Alexandre Dumas e esqueci os meus amigos.
Depois recebi um saco de mangas
Toda a afeição da ausência…
Como não lembrar essas noites cheias de mar batendo?
Como não lembrar Susana e Eli?
Como esquecer os amigos pobres?
Eles são essa memória que é sempre sofrimento Vêm da noite inquieta que
agora me cobre.
São o olhar de Clara e o beijo de Carmem
São os novos amigos, os que roubaram luz e me trouxeram.
Como esquecer isso que foi a primeira angústia Se o murmúrio do mar está
sempre nos meus ouvidos Se o barco que eu não via é a vida passando
Se o ei-ou dos pescadores é o gemido de angústia de todas as noites?
Rio de Janeiro, 1935
O cadafalso
Eu caí de joelhos diante do amor transtornado do teu rosto Estavas alta e
imóvel – mas teus seios vieram sobre mim e me feriram os olhos E
trouxeram sangue ao ar onde a tempestade agonizava.
Subitamente cresci e me multipliquei ao peso de tanta carne Cresci sentindo
que a pureza escorria de mim como a chuva dos galhos E me deixava
parado, vazio para a contemplação da tua face.
Longe do mistério do teu amor, curvado, eu fiquei ante tuas partes intocadas
Cheio de desejo e inquietação, com uma enorme vontade de chorar no teu
(vestido.
Para desvendar as tuas formas nas minhas lágrimas Agoniado abracei-te e
ocultei o meu sopro quente no teu ventre E logo te senti como um cepo e
em torno a mim eram monges brancos em (ofício de mortos
E também – quem chorou? – Vozes como lamentações se repetindo.
No horror da treva cravou-se em meus olhos uma estranha máscara de dois
(gumes
E sobre o meu peito e sobre os meus braços, tenazes de fogo, e sob os meus
(pés piras ardendo.
Oh, tudo era martírio dentro daquelas vozes soluçando Tudo era dor e
escura angústia dentro da noite despertada!
"Me salvem – gritei – me salvem que não sou eu!" – e as ladainhas repetia –
me (salvem que não sou eu!
E veio então uma mulher como uma visão sangrenta de revolta Que com
mão de gigante colheu o que de sexo havia em mim e o espremeu
(amargamente
E que separou a minha cabeça violentameme do meu corpo.
Nesse momento eu tive de partir e todos fugiam aterrados Porque
misteriosamente meu corpo transportava minha cabeça para o (inferno...
Rio de Janeiro, 1935
MORAES, Vinicius de. “O cadafalso”. In: Vinicius de Moraes: Poesia Completa e Prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1998, p. 54.
O nascimento do homem
I
E uma vez, quando ajoelhados assistíamos à dança nua das auroras Surgiu
do céu parado como uma visão de alta serenidade Uma branca mulher de
cujo sexo a luz jorrava em ondas E de cujos seios corria um doce leite
ignorado.
Oh, como ela era bela! era impura – mas como ela era bela!
Era como um canto ou como uma flor brotando ou como um cisne Tinha
um sorriso de praia em madrugada e um olhar evanescente E uma cabeleira
de luz como uma cachoeira em plenilúnio.
Vinha dela uma fala de amor irresistível
Um chamado como uma canção noturna na distância Um calor de corpo
dormindo e um abandono de onda descendo Uma sedução de vela fugindo
ou de garça voando.
E a ela fomos e a ela nos misturamos e a tivemos...
Em véus de neblina fugiam as auroras nos braços do vento Mas que nos
importava se também ela nos carregava nos seus braços E se o seu leite
sobre nós escorria e pelo céu?
Ela nos acolheu, estranhos parasitas, pelo seu corpo desnudado E nós a
amamos e defendemos e nós no ventre a fecundamos Dormíamos sobre os
seus seios apoiados ao clarão das tormentas E desejávamos ser astros para
inda melhor compreendê-la.
Uma noite o horrível sonho desceu sobre as nossas almas sossegadas A
amada ia ficando gelada e silenciosa – luzes morriam nos seus olhos...
Do seu peito corria o leite frio e ao nosso amor desacordada Subiu mais alto
e mais além, morta dentro do espaço.
Muito tempo choramos e as nossas lágrimas inundaram a terra Mas morre
toda a dor ante a visão dolorosa da beleza Ao vulto da manhã sonhamos a
paz e a desejamos Sonhamos a grande viagem através da serenidade das
crateras.
Mas quando as nossas asas vibraram no ar dormente Sentimos a prisão
nebulosa de leite envolvendo as nossas espécies A Via Láctea – o rio da
paixão correndo sobre a pureza das estrelas A linfa dos peitos da amada que
um dia morreu.
Maldito o que bebeu o leite dos seios da virgem que não era mãe mas era
(amante
Maldito o que se banhou na luz que não era pura mas ardente Maldito o que
se demorou na contemplação do sexo que não era calmo mas 75
(amargo
O que beijou os lábios que eram como a ferida dando sangue!
E nós ali ficamos, batendo as asas libertas, escravos do misterioso plasma
Metade anjo, metade demônio, cheios de euforia do vento e da doçura do
(cárcere remoto
Debruçados sobre a terra, mostrando a maravilhosa essência da nossa vida
Lírios, já agora turvos lírios das campas, nascidos da face lívida da morte.
II
Mas vai que havia por esse tempo nas tribos da terra Estranhas mulheres de
olhos parados e longas vestes nazarenas Que tinham o plácido amor nos
gestos tristes e serenos E o divino desejo nos frios lábios anelantes.
E quando as noites estelares fremiam nos campos sem lua E a Via Láctea
como uma visão de lágrimas surgia Elas beijavam de leve a face do homem
dormindo no feno E saíam dos casebres ocultos, pelas estradas
murmurantes.
E no momento em que a planície escura beijava os dois longínquos
horizontes E o céu se derramava iluminadamente sobre a várzea Iam as
mulheres e se deitavam no chão paralisadas As brancas túnicas abertas e o
branco ventre desnudado.
E pela noite adentro elas ficavam, descobertas O amante olhar boiando
sobre a grande plantação de estrelas No desejo sem fim dos pequenos seres
de luz alcandorados Que palpitavam na distância numa promessa de beleza.
E tão eternamente os desejavam e tão na alma os possuíam Que às vezes
desgravitados uns despenhavam-se no espaço E vertiginosamente caíam
numa chuva de fogo e de fulgores Pelo misterioso tropismo subitamente
carregados.
Nesse instante, ao delíquio de amor das destinadas Num milagre de unção,
delas se projetava à altura Como um cogumelo gigantesco um grande útero
fremente Que ao céu colhia a estrela e ao ventre retornava.
E assim pelo ciclo negro da pálida esfera através do tempo Ao clarão
imortal dos pássaros de fogo cruzando o céu noturno As mulheres, aos
gritos agudos da carne rompida de dentro Iam se fecundando ao amor
puríssimo do espaço.
E às cores da manhã elas voltavam vagarosas
Pelas estradas frescas, através dos vastos bosques de pinheiros E ao chegar,
no feno onde o homem sereno inda dormia
Em preces rituais e cantos místicos velavam.
Um dia mordiam-lhes o ventre, nas entranhas – entre raios de sol vinha
(tormenta…
Sofriam... e ao estridor dos elementos confundidos Deitavam à terra o fruto
maldito de cuja face transtornada As primeiras e mais tristes lágrimas
desciam.
Tinha nascido o poeta. Sua face é bela, seu coração é trágico Seu destino é
atroz; ao triste materno beijo mudo e ausente Ele parte! Busca ainda as
viagens eternas da origem Sonha ainda a música um dia ouvida em sua
essência.
Rio de Janeiro, 1935
MORAES, Vinicius de. “O nascimento do homem”. In: Vinicius de Moraes: Poesia Completa e Prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1998, p. 75.
O poeta
O poeta
A vida do poeta tem um ritmo diferente
É um contínuo de dor angustiante.
O poeta é o destinado do sofrimento
Do sofrimento que lhe clareia a visão de beleza E a sua alma é uma parcela
do infinito distante O infinito que ninguém sonda e ninguém compreende.
Ele é o etemo errante dos caminhos
Que vai, pisando a terra e olhando o céu
Preso pelos extremos intangíveis
Clareando como um raio de sol a paisagem da vida.
O poeta tem o coração claro das aves
E a sensibilidade das crianças.
O poeta chora.
Chora de manso, com lágrimas doces, com lágrimas tristes Olhando o
espaço imenso da sua alma.
O poeta sorri.
Sorri à vida e à beleza e à amizade
Sorri com a sua mocidade a todas as mulheres que passam.
O poeta é bom.
Ele ama as mulheres castas e as mulheres impuras Sua alma as compreende
na luz e na lama
Ele é cheio de amor para as coisas da vida
E é cheio de respeito para as coisas da morte.
O poeta não teme a morte.
Seu espírito penetra a sua visão silenciosa
E a sua alma de artista possui-a cheia de um novo mistério.
A sua poesia é a razão da sua existência
Ela o faz puro e grande e nobre
E o consola da dor e o consola da angústia.
A vida do poeta tem um ritmo diferente
Ela o conduz errante pelos caminhos, pisando a terra e olhando o céu Preso,
eternamente preso pelos extremos intangíveis.
Rio de Janeiro, 1933
MORAES, Vinicius de. “O poeta”.In: O Sentimento do Sublime. In: Vinicius de Moraes: Poesia Completa e Prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1998, p. 17.
O único caminho
No tempo em que o Espírito habitava a terra
E em que os homens sentiam na carne a beleza da arte
Eu ainda não tinha aparecido.
Naquele tempo as pombas brincavam com as crianças
E os homens morriam na guerra cobertos de sangue.
Naquele tempo as mulheres davam de dia o trabalho da palha e da lã
E davam de noite, ao homem cansado, a volúpia amorosa do corpo.
Eu ainda não tinha aparecido.
No tempo que vinham mudando os seres e as coisas
Chegavam também os primeiros gritos da vinda do homem novo
Que vinha trazer à carne um novo sentido de prazer
E vinha expulsar o Espírito dos seres e das coisas.
Eu já tinha aparecido.
No caos, no horror, no parado, eu vi o caminho que ninguém via
O caminho que só o homem de Deus pressente na treva.
Eu quis fugir da perdição dos outros caminhos
Mas eu caí.
Eu não tinha como o homem de outrora a força da luta
Eu não matei quando devia matar
Eu cedi ao prazer e à luxúria da carne do mundo.
Eu vi que o caminho se ia afastando da minha vista
Se ia sumindo, ficando indeciso, desaparecendo.
Quis andar para a frente.
Mas o corpo cansado tombou ao beijo da última mulher que ficara.
Mas não.
Eu sei que a Verdade ainda habita minha alma
E a alma que é da Verdade é como a raiz que é da terra.
O caminho fugiu dos olhos do meu corpo
Mas não desapareceu dos olhos do meu espírito
Meu espírito sabe...
Ele sabe que longe da carne e do amor do mundo
Fica a longa vereda dos destinados do profeta.
Eu tenho esperanças, Senhor.
Na verdade o que subsiste é o forte que luta
O fraco que foge é a lama que corre do monte para o vale.
A águia dos precipícios não é do beiral das casas
Ela voa na tempestade e repousa na bonança.
Eu tenho esperanças, Senhor.
Tenho esperanças no meu espírito extraordinário
E tenho esperança na minha alma extraordinária.
O filho dos homens antigos
Cujo cadáver não era possuído da terra
Há de um dia ver o caminho de luz que existe na treva
E então, Senhor
Ele há de caminhar de braços abertos, de olhos abertos
Para o profeta que a sua alma ama mas que seu espírito ainda não possuiu.
Rio de Janeiro, 1933
MORAES, Vinicius de. “O único caminho”.In: O Sentimento do Sublime. In: Vinicius de Moraes: Poesia Completa e Prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1998, p. 06.
Poema feito para chegar aos ouvidos de Santa Teresa
Não quero ir pro inferno
Santa Teresinha
Quero é ir pro céu
Que é boa terrinha
Mas se eu for pro céu
Você me procura?
Você me namora,
Santa Teresinha?
Você me namora, hein, santa Teresinha?
31.01.1939
MORAES, Vinicius de. “Poema feito para chegar aos ouvidos de Santa Teresa”.In: Poesias coligidas In: Vinicius de Moraes: Poesia Completa e Prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1998, p. 350.
Poemas para todas as mulheres
Poemas para todas as mulheres
No teu branco seio eu choro.
Minhas lágrimas descem pelo teu ventre
E se embebedam do perfume do teu sexo.
Mulher, que máquina és, que só me tens desesperado Confuso, criança para
te conter!
Oh, não feches os teus braços sobre a minha tristeza não!
Ah, não abandones a tua boca à minha inocência, não!
Homem sou belo
Macho sou forte, poeta sou altíssimo
E só a pureza me ama e ela é em mim uma cidade e tem mil e uma portas.
Ai! Teus cabelos recendem à flor da murta
Melhor seria morrer ou ver-te morta
E nunca, nunca poder te tocar!
Mas, fauno, sinto o vento do mar roçar-me os braços Anjo, sinto o calor do
vento nas espumas
Passarinho, sinto o ninho nos teus pêlos...
Correi, correi, ó lágrimas saudosas
Afogai-me, tirai-me deste tempo
Levai-me para o campo das estrelas
Entregai-me depressa à lua cheia
Dai-me o poder vagaroso do soneto, dai-me a iluminação das odes, dai-me
(o cântico dos cânticos
Que eu não posso mais, ai!
Que esta mulher me devora!
Que eu quero fugir, quero a minha mãezinha quero o colo de Nossa
Senhora!
Rio de Janeiro, 1938
MORAES, Vinicius de. “Poemas para todas as mulheres”. In: Vinicius de Moraes: Poesia Completa e Prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1998, p. 108.
Quando me ergui ela dormia, nua…
Quando me ergui ela dormia, nua
E sorria, em seu sono desmaiada
Tinha a face longínqua e iluminada
E alto, seu sexo sugava a Lua.
Toquei-a, ela fremiu, gemeu, na sua
Doce fala, e bateu a mão alçada
No ar, e foi deixá-la de guardada
Sob a nádega fria, forte e crua
Tão louca a minha amiga, linda e louca
Minha amiga, em seu branco devaneio
De mim, eu de amor pouco e vida pouca
Mas que tinha deixado sem receio
Um segredo de carne em sua boca
E uma gota de leite no seu seio.
Oxford, 01.11.1938
MORAES, Vinicius de. “Quando me ergui ela dormia, nua…”.In: Poesias coligidas. In: Vinicius de Moraes: Poesia Completa e Prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1998, p. 350.
Soneto da mulher ao sol
Uma mulher ao sol – eis todo o meu desejo
Vinda do sal do mar, nua, os braços em cruz
A flor dos lábios entreaberta para o beijo
A pele a fulgurar todo o pólen da luz.
Uma linda mulher com os seios em repouso
Nua e quente de sol – eis tudo o que eu preciso
O ventre terso, o pêlo úmido, e um sorriso
À flor dos lábios entreabertos para o gozo.
Uma mulher ao sol sobre quem me debruce
Em quem beba e a quem morda e com quem me lamente
E que ao se submeter se enfureça e soluce
E tente me expelir, e ao me sentir ausente
Me busque novamente – e se deixa a dormir
Quando, pacificado, eu tiver de partir…
A bordo do Andrea C, a caminho da França,
11.1956
MORAES, Vinicius de. “Soneto da mulher ao sol”.In: A lua de Montevidéu. In: Vinicius de Moraes: Poesia Completa e Prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1998, p. 309.
Soneto de carta e mensagem
Soneto de carta e mensagem
"Sim, depois de tanto tempo volto a ti
Sinto-me exausta e sou mulher e te amo
Dentro de mim há frutos, há aves, há tempestades E apenas em ti há espaço
para as consolação
"Sim, meus seios vazios me mortificam – e nas noites Eles têm ânsias de
semente que sente germinar seu broto Ah, meu amado! é sobre ti que eu me
debruço
E é como se me debruçasse sobre o infinito !
"Pesa-me, no entanto, o medo de que me tenhas esquecido Ai de mim! que
farei sem o meu homem, sem o meu esposo Que rios não me levarão de
esterilidade e de tristeza?
"Mulher, para onde caminharei senão para a sombra Se tu, oh meu
companheiro, não me fecundares E não esparzires do teu grão a terra pálida
dos lírios?..."
Rio de Janeiro, 1938
MORAES, Vinicius de. “Soneto de carta e mensagem”. In: Vinicius de Moraes: Poesia Completa e Prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1998, p. 103.
Soneto de devoção
Essa mulher que se arremessa, fria
E lúbrica aos meus braços, e nos seios
Me arrebata e me beija e balbucia
Versos, votos de amor e nomes feios.
Essa mulher, flor de melancolia
Que se ri dos meus pálidos receios
A única entre todas a quem dei
Os carinhos que nunca a outra daria.
Essa mulher que a cada amor proclama
A miséria e a grandeza de quem ama
E guarda a marca dos meus dentes nela.
Essa mulher é um mundo! – uma cadela
Talvez... – mas na moldura de uma cama
Nunca mulher nenhuma foi tão bela!
Rio de Janeiro, 1938
MORAES, Vinicius de. “Soneto de devoção”. In: Vinicius de Moraes: Poesia Completa e Prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1998, p. 106.
Soneto do breve momento
Plumas de ninhos em teus seios; urnas
De rubras flores em teu ventre; flores
Por todo corpo teu, terso das dores
De primaveras loucas e noturnas.
Pântanos vegetais em tuas pernas
A fremir de serpentes e de sáurios
Itinerantes pelos multivários
Rios de águas estáticas e eternas.
Feras bramindo nas estepes frias
De tuas brancas nádegas vazias
Como um deserto transmudado em neve.
E em meio a essa inumana fauna e flora
Eu, nu e só, a ouvir o Homem que chora
A vida e a morte no momento breve.
Belo Horizonte, 31.03.1952
MORAES, Vinicius de. “Soneto do breve momento”.In: Poesias coligidas. In: Vinicius de Moraes: Poesia Completa e Prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1998, p. 356.
Uma mulher no meio do mar
(Sobre um desenho original de Almir Castro)
Na praia batida de vento a voz entrecontada chama Dentro da noite amarga
a grande lua está contigo e está com ela – pousa o (teu rosto sobre a areia!
A tua lágrima de homem ficará correndo sobre o teu corpo dormindo e te
(levará boiando
E talvez a tua mão inerme encontre a sua mão cheia de frio Tudo está
sozinho e o supremo abandono pousou sobre o corpo nu da que (deixaste ir
A onda solitária é o berço do amor e há uma música eterna nas formas
(invisíveis
Passa o teu braço sobre o que foi o triste destroço de um outro mar bem
(mais revolto
E sentirás que nunca o pobre corpo foi mais flexuoso ao teu afago nem o
(olhar mais aberto ao teu desejo.
Afaga os seios que os seus beijos poluíram e que a água amante fez altos e
(serenos
Mergulha os dedos pela última vez na úmida cabeleira espessa que se vai
(abrir como as medusas
Porque também a lua vive a vez derradeira a visão escrava Porque nunca
mais também os olhos que estão parados te mostrarão o céu E as linhas que
vês desfeitas já pesam como que para o descanso do fundo (que não
atingirás.
Não sentes que é preciso que ela vá, vá dar morada às algas que lhe
cobrirão (amorosamente o corpo
Para fugir de ti que o cobrias apenas com a ardência imutável do teu
desejo?
Oh, o amor que abre os braços à piedade!…
Rio de Janeiro, 1935
Projeto de Pesquisa: Tradição e ruptura na poesia de senhor de engenho: imagens da mulher (FALE/ILC/UFPA)
Coordenadora: Profa. Dra. Angela Teodoro Grillo
Colaboração: Literatura e sociedade: releitura de vozes plurais (Projeto Universal/CNPQ)
Bolsista: Ana Lígia Rodrigues Drago (Bolsa CNPQ/Universal)