Mil Marias: Grupo de Pesquisa de Imagens da Mulher na Poesia de Língua Portuguesa (FALE/ ILC/ UFPA/ CNPq)                         

 

Cantos Populares do Brasil (1883)


Marca d'água

O rabicho da Geralda

I

Eu fui o liso Rabicho,
Boi de fama conhecido;
Nunca houve n'este mundo
Outro boi tão destemido.
Minha fama era tão grande
Que enchia todo o sertão,
Vinham de longe vaqueiros
P'ra me botarem no chão.
Ainda eu era bezerro
Quando fugi do curral
E ganhei o mundo grande
Correndo no bamburral.
Onze annos eu andei
Pelas catingas fugido;
Minha senhora Geralda
Já me tinha por perdido.
Morava em cima da serra
Onde nioguem me avistava,
Só sabiam que era Yivo
Pelo rasto que eu deixava.
Sahi um dia a pastar
Pela malhada do Chisto,
Onde por minha desgraça
D'um caboclinbo fui visto.
Partiu elle de carreira
E foi por alli aos topes
Dar novas de me ter visto
Ao vaqueiro José Lopes.
José Lopes que isso ouviu,
Foi gritando ao filho João:
-Vai-me vêr o Barbadinho,
E o cavallo Tropelão.
Dá um pulo no compadre,
Que venba com o eu ferrão,
Para irmos ao Rabicho,
Qu'ha-de ser um carreirão.

Foi montando o José Lopes
E deu linha ao Barbadinho,
Tirando inculcas de mim
Pela gente do caminho.
Encontrou Thomé da Silva
Que era velho topador :
- Dá-me novas do llabicbo
Da Geralda, meu senhor?
- Homem, eu não o vi;
Se o visse, do mesmo geito
Ia andando o meu caminho
Que era lida sem proveito.
« Pois então saiba o senhor,
A co usa foi conversada,
A minha ama já me disse
Que d'esse boi não quer nada.
Uma banda e mais o couro
Ficará para o mortorio,
A outra será p'ra missas
Ás almas do purgatorio.

Despediu-se o José Lopes
E metteu-se n'um carrasco;
Dando n'um rasto ele boi
Conheceu logo o meu casco.
Todos tres muito contentes
Trataram de me seguir,
Consummiram todo o dia,
E á noite foram dormir.
No fim de uma semana
Voltaram mortos de fome,
Dizendo : « O bicho, senhores,
Não é boi; é lobishome ».

II

Outro dia que eu malhei
Perto d'uma ribanceira,
Ao longe vi o Cherem
Com seu amigo Moreira.
Arranquei logo d'ahi
Em procura de um fechado ;
Juntou atraz o Morflira
Correndo como um damnado.
Mas logo adiante esbarrei
Escutando um zoadão ;
Moreira se despenhou
No fundo de um barracão:

«Corre, corre, boi malvado,
Não quero saber de ti,
Já me basta a minha faca
E a espora que perdi.
Alevantou -se o Moreira
Juntando todo o seu trem,
E gritou que lhe acudisse
Ao seu amigo Cherem.
Corre a elle o Cherem
Com muita resolução :
- «Não se engane, sô Moreira,
Que o Rabicho é tormentão.
« Ora deixe-me, Cherem;
Vou mais quente que uma braza.
Seguiram pela vereda
E lá foram ter a casa.

III

Resolveram-se a chamar
De Pajeú um vaqueiro;
D'entre todos que lá Linha
Era o maior catingneiro.
Chamava-se Ignacio Gomes,
Era um cabra coriboca,
De nariz achamurrado,
Tinha cara de pipoca.
Antes que de Já sahisse
Amolou o seu ferrão :
« Onde encontrar o Rabicho
D'um tope o boto no chão.

Quando esse cabra chegou
Na fazenda da Gruixaba,
Foi todo o mundo dizendo:
Agora o Raibicho acaba.
«Senhores, eu aqui estou,
Mas não conheço dos pastos :
Só quero me dêem um guia
Que venha mostrar-me os rastos.
Que eu não preciso ele o vêr
Para pegar o seu boi;
Basta-me só vêr-lhe o rasto
De três dias que se foi. »

IV

De manhã logo mui cedo
Fui á malharia do Chisto,
Em antes que visse o cabra
Já elle me tinha visto.
Encontrei-me cara a cara
Com o cabra topetudo;
Não sei como n'esse dia
Alli não se acabou tudo.
Foi uma carreira feia
Para a Serra da Chapada,
Quando eu cuidei, era tarde,
Tinha o cabra na rabada.
''Corra, corra, camarada,
Puxe bem pela memoria ;
Quando eu vim da minha terra
Não foi p'ra contar historia. »

Tinha adiante um pau cabido
Na descida de um riacho;
O cabra saltou por cima,
O ruço passou por baixo.
« Puxe bem pela memoria,
Corra, corra, camarada ;
Quando eu vim de minha terra
Não vim cá dar barrigada. »
O guia da contra-banda
la gritando tambem :
«Veja que eu não sou Moreira,
Nem seu amigo Cherem. »

Apertei mais a carreira,
Fui passar no boqueirão.
O ruço rolou no fundo,
O cabra pulou no chão.
N'esta passagem dei linha,
Descancei meu coração,
Que não era d'esta feita
Que o Rabicho ia ao moirão.

O cabra desfigurado
Lá foi ter ao carrapicho:
-Seja bem apparecido,
Dá-me novas do Rabicho?
« Senhores, o boi eu vi,
O mesmo foi que não vêr,
Pois como este excomungado
Nunca vi um boi correr.))
Tornou-lhe o Goes n'este tom:
–Desengane-se co'o bicho;
Pelos olhos se conhece
Quem dá volta no Rabicho.
Esse boi, é escusado,
Não ha quem lhe tire o fel;
Ou elle morre de velho,
ou de cobra cascavel.

V

Veiu aquella grande sêcca
De todos tão conhecida;
E logo vi que era o caso
De despedir-me da vida.
Seccaram-se os olhos d'agua
Onde eu sempre ia beber,
Botei-me no mundo grande,
Logo disposto a morrer.
Segui por uma vereda
Até dar n'um cacimbão,
Matei a sede que tinha,
Refresquei o coração.
Quando quiz tomar assumpto
Tinham fechado a porteira;
Achei-me n'uma gangorra
Onde não vale carreira.
Corrigi os quatro cantos;
Tornei a voltar atraz,
Mas toda a minha derrota
Foi o diabo do rapaz.

Correu logo para casa
E gritou aforçurado:
« Gentes, venham depressa
Que o Rabicho está pegado.»
Trouxêram tres bacamartes,
Cada qual mais desalmado ;
Os tres tiros que me deram
De todos fui trespassado.
Só assim saltaram dentro,
Eram vinte p'ra me matar,
Sete nos pés, dez nos chifres,
E mais tres p'ra me sangrar.
Disse então o José Lopes
Ao com padre da Mafalda:
«Só assim nós comeríamos
Do Rabicho da Geralda. »

VI

Acabou-se o boi de fama,
O corredor famanaz,
Outro boi como o Rabicho
Não haverá nunca mais.


ROMERO, Sylvio (org.) “O rabicho da Geralda”. In: Cantos Populares do Brazil. Lisboa: Nova Livraria Internacional, 1883. v. 1. p. 66-72.

 

Projeto de Pesquisa: Tradição e ruptura na poesia de senhor de engenho: imagens da mulher (FALE/ILC/UFPA)
Coordenadora: Profa. Dra. Angela Teodoro Grillo
Bolsista: Fabrícia Paraíso de Araújo (PIBIC/ UFPA)