Cantos Populares do Brasil (1883)
Projeto de Pesquisa: Tradição e ruptura na poesia de senhor de engenho: imagens da mulher (FALE/ILC/UFPA)
Coordenadora: Profa. Dra. Angela Teodoro Grillo
Bolsista: Fabrícia Paraíso de Araújo (PIBIC/ UFPA)
D. Carlos de Montealbar
« Deus vos salve, senhor Dom Carlos;
O senhor que fazia lá?
— Me arrumando, senhora,
Para comtigo brincar.
Quando estavam a brincar,
Um cavalleiro vêem passar;
Dom Carlos como ardiloso
Logo quiz o degolar.
— « Não me mate o cavalleiro,
Qu´é do reino de meu pai.
« Cavalleiro, o que aqui viste
A meu pai não vai contar
Qu’eu te darei ouro e prata
Quanto possas carregar.
- « Eu não quero ouro e prata
Que a senhora não m'os dá;
Brinquedos que vi aqui
A meu rei irei contar.
« Cavalleiro, o que aqui viste
A meu pai não vai contar,
Qu'eu te darei minha sobrinha
Para comtigo casar
— « Não quero sua sobrinha
Que a senhora não m’a dá;
Folguedis que vi aqui
A meu rei irei contar.
— Cavalleiro, o que aqui viste
A meu pai não vai contar,
Te darei o meu palácio
Com todo o meu cabedal.
— Não quero o seu cabedal,
Que a senhora não m’o dá,
Que isto que eu vou contar
Muito mais me ganhará
................................................
— « Novas vos trago, senhor,
Novas eu vos quero dar;
Eu topei a Clararinha
Com Dom Carlos a brincar;
Da cintura para riba
Muitos beijos eu vir dar;
Da cintura para baixo
Não vos posso mais contar
— Si me contasse occulto
Meu reino te havera dar
Como contasse de publico
Mandarei-te degolar.
Vão-me buscar a Dom Carlos,
Depressa, não devagar;
Carregado bem de ferros
Que não possa me fallar.
— Vão buscar meu tio bispo,
Qu’eu me quero confessar
Antes que chegue a hora
Que me venham degolar.
— « Deus vos salve, meu sobrinho,
Qu’em sua prisão está;
Por amor de Claranhinha
Lá te vão a ti matar;
Toda a vida eu te disse
Que tu deixasse de amar:
Clararinha era impedida,
Poderiam-te matar.
-Sáia-se d’aqui, meu tio,
Não me venha a enfadar
Mais val eu morrer por ella
Do que deixal-a de amar.
Chiquitinho, Chiquitinho,
Que sempre me foi leal,
Vai dizer à Claraninha
Que já me vão me matar;
Si meus olhos vir os d’ella
Minha alma se salvará
— « Deus vos salve, Claraninha
Que no seu estrado está;
Dom Carlos manda dizer
Que já vai se degolar.
« Criadas, minhas criadas,
Si quereis me acompanhar,
Eu já me vou com o cabello
Faltando por entrançar.
Justiça, minha justiça,
Minha justiça real,
Por aquelle que está alli
Minha vida eu irei dar.
Deus vos salve, senhor Dom Carlos,
Não se dê a desmaiar;
Si a minha alma se perder,
A sua se salvará.
- Conselheiros, conselheiros,
Que conselhos quereis dar :
Qu'eu mate senhor Dom Carlos,
Ou que os mandarei casar?
= O conselho que vos damos
É para os mandar casar,
E pegai este arengueiro
E mandai-o degolar.
« Arengueiro, embusteiro,
O que ganhaste em contar?
- « Ganhei a forca, senhora;
D'ella vinde-me tirar.
« Si eu quizera, bem pudera,
Pois nas minhas mãos está;
Para te servir de emenda
Mandarei-te degolar.
ROMERO, Sylvio (org.). “D. Carlos de Montealbar”. In: Cantos populares do Brazil. Lisboa: Nova Livraria Internacional, 1883. v. 1. p. 16-18.
Florioso
— Entre pedras e peneiras,
Senhora, vamos a ver;
Menina que estaes na fonte,
« Dai-me agua para beber.
« Com licença do Senhor,
E da Senhora da Guia,
Dizei-me, senhor mancebo,
Si vindes de companhia?
— A companhia que trago
Já vos digo na verdade;
Venho divertir o tempo,
Que é cousa da mocidade.
« É causa da mocidade,
Bem já me parece ser;
Dizei-me, senhor mancebo,
Si sabeis ler e escrever ?
— Eu não sei ler e escrever,
Nem mesmo tocar viola;
Agora quero aprender
Na vossa real escóla ...
« Escóla tenho eu de minha,
Nange p'ra negro aprender;
Juizo te dê Deus,
Memoria para saber.
— N'estas mimosas esquinas
Faz-se ausencia muito mal ;
Eu sempre pensei, senhora,
Que vós me querieis mal.
« Quanto a mim, eu não te quero
N'alma, nem no coração;
Até só te peço, negro,
Que não me toques na mão.
— Nas mãos eu não vos tóco,
Nem mesmo bulo comvosco;
Quero estar a par de vós,
Pois eu n'isto levo gosto.
« Si tu n'isto levas gosto,
Desgostas por vida tua;
Que esta casa que aqui está
É de outro e não é tua.
— Si é de outro e não é minha
Inda espero que ha-de ser;
Menina, diga a seu pai
Que me mande receber.
« Taes palavras eu não digo
Que inda sou muito escusada,
Pois eu sou menina e moça,
Não sou para ser casada.
— Inda mais moças que vós
Regem casa e tem marido ;
Assim ha-de ser, menina,
Quando casardes commigo.
« Mas eu não hei-de casar,
Porque não hei-de querer;
Eu não me metto a perigos,
Quando vejo anoitecer ...
— Nem eu quero cousa á força,
Sinão por muita vontade,
Eu quero gozar a vida,
Que é causa da mocidade. -
« D'onde vem o Florioso
Das melendias penteadas?
— Eu venho ser o vaqueiro
Das ovelhas mais das cabras.
« D'este mesmo gado eu cuido
Da mais fina geração;
— D'aquelle que veste luvas
De cinco dedos na mão.
« Já fui contar as estrellas,
— Eu já sei que estou no caso…
« Eu sei agora, mancebo,
Que tu só és o diabo ...
— O diabo eu não sou ;
Ai Jesus, que feio nome !
Só peço ao Senhor da Cruz
Que este diabo vos tome. »
ROMERO, Sylvio (org.). “Florioso”. In: Cantos populares do Brazil. Lisboa: Nova Livraria Internacional, 1883. v. 1. p. 39-30.
Os cócós de cordão
« A minha mana Luiza
É moça de opinião;
Passou a mão na tesoura,
Deu com o cócó no chão.
Sete canadas de azeite,
Banha de camaleão
É pouco p'ra fazer banha
P'ra estes cócós ele cordão.
O sebo está muito caro,
'Stá valendo um dinheirão;
Quero vêr com que se acocham
Estes cócós de cordão.
Os caixeiros da Estância
Levam grande repellão,
Para não venderem sebo
P'r'a estes cócós de cordão.
Deus permitta que não chova,
P'ra não haver algodão;
Quero vêr com que se amarram
Estes cócós de cordão.
Na fonte da gamelleira
Não se lava com sabão;
Se lavam com folhas verdes
Estes cócós ele cordão.
As negras de taboleíro
Não comem mais carne, não;
Só comem sebo de tripa
D'estes cócós de cordão.
O moço que é brazileiro
Que conserva opinião,
Não deita na sua rêde
D'estes cócós de cordão.
Ajuntem-se as moças todas
Em redor d'este piião,
Qu'é p'ra pizarem o sebo
P'ra estes cócós de cordão.
Ajuntem-se as velhas todas
Em roda do violão,
Qu'é p'ra dançarem o samba
D'estes cócós de cordão.
ROMERO, Sylvio (org.). “Os cócós de cordão”. In: Cantos populares do Brazil. Lisboa: Nova Livraria Internacional, 1883. v. 1. p. 64-66.
Xacara do cego
— Sinhá da casa,
Venha vêr seu pobre;
Nem por vir pedir
Deixo ele ser nobre.
« Não póde ser nobre
Quem vem cá pedir ;
Não ha que lhe dar,
Já póde seguir.
— Não usaes commigo
Tanta ingratidão
D'este pobre cego
Tende compaixão.
« Eu não sou dona,
Nem governo nada;
A dona da casa
Ainda está deitada.
— Se está deitada
Jae-a chamar;
Que o pobre do cego
Lhe quer fallar.
« Acordai, senhora,
Do doce dormir;
Vinde vêr o cego
Cantar e pedir.
— « Si elle canta e pede
Dai-lhe pão e vinho,
Para o pobre cego
Seguir seu caminho.
Larga, Anninha, a roca
E tambem o linho;
Vai ensinar o cego
Seguir seu caminho.
« Aqui fica a roca,
Acabou o linho;
Marchai adiante, cego,
Lá vai o caminho.
— Anda, anda, Anninha,
Mais um bocadinho;
Sou curto da vista,
Não enxergo o caminho.
« De conde e fidalgo
Me vi pretendida,
Hoje de um cego
Me vejo rendida.
— Cala-te, condessa,
Prenda tão querida,
Eu sou este conde
Que te pretendia.
« Cala-te, conde,
Não digas mais nada;
Só quero saiamos
D'aqui d'esta estrada.
Infinitas graças
Vos dou, meu senhor,
Já ter vencido
Um cruel amor.
ROMERO, Sylvio (org.) “Xacara do cego”. In: Cantos Populares do Brazil. Lisboa: Nova Livraria Internacional, 1883. v.1. p.34-35.