Mil Marias: Grupo de Pesquisa de Imagens da Mulher na Poesia de Língua Portuguesa (FALE/ ILC/ UFPA/ CNPq)                         

 

Gilka Machado (1893-1980)

 


Marca d'água

A uma lavadeira

 


Minha visinha lavandeira,
mal nasce o Sol, põe-se a cantar .
canta a manhan, a tarde inteira:
mais me parece uma rendeira
ívosos sons esfiando no ar

Quando ella vae ao coradouro
finas cambraias estender,
olhos azues, cabello louro,
tudo em seu corpo canta em coro,
pela alegria de viver

Horas a fio, o olhar estanco
e estanco o ouvido ao seu labor;
lembra um tecido muito branco
seu canto suave, ingênuo e franco,
a se alongar do espaço á flor

Cantar, cantar é sua vida;
quando, ao pallor crepuscular,
ella se vae, a indefinida
canção, embora emmudecida,
por longa tempo fica a echoar

Si a Lua, sobre os silenciados
campos, do luar abre os lençóes,
não mais, então, lhe ouço os trinados,
mas cuido ver, por sobre os prados,
dormir, sonhar a sua voz.

Cantando sempre, ella mergulha
no rio as mãos feitas de luar;
e, por sentil-a, ri, marulha
o rio; aos dedos seus, de agulha,
a água é uma renda sobre um tear

E dessas mãos o alvôr é tanto
que, ás vezes, tenho a convicção
de que, talvez por um encanto,
alvo se torne tudo quanto
os dedos seus tocando vão.

Embalde o espirito perscruta,
de onde lhe vem esse poder,
de, sem possuir a força bruta,
assim tornar clara, impolluta,
roupa que ás mãos lhe venha ter.

Não poderei, por mais que o queira!
dado me fosse e, dos desvãos
da minha dôr tirara inteira
esta alma, ó linda lavandeira!
para o crysol das tuas mãos.

Ao teu labor, que assim depura,
tenho este anceio singular:
pudesses tu, leda creatura,
lavar minha alma da amargura
e pol-a ao Sol para seccar!


MACHADO, Gilka. “A uma lavadeira”. In: Mulher Nua. Rio de Janeiro, 1922, p. 109.

 

Projeto de Pesquisa: Tradição e ruptura na poesia de senhor de engenho: imagens da mulher (FALE/ILC/UFPA)
Coordenadora: Profa. Dra. Angela Teodoro Grillo
Bolsista: Ana Lígia Rodrigues Drago (Bolsa CNPq/Universal)