Mil Marias: Grupo de Pesquisa de Imagens da Mulher na Poesia de Língua Portuguesa (FALE/ ILC/ UFPA/ CNPq)                         

 

Raul Bopp (1898-1984)

 


Marca d'água

Mucama

 


No varandão da Sinhá-moça,
mucama embala molemente a rede.

— Sinhazinha tem um pescoço cheiroso...
— Ó negra boba.

— Durmindozinho assim sem nadinha, na rede
sinhazinha fica tão bonita...
— Negra boba.

— Cinturinha piquininha...
— Boba…

— Ah mas eu sei de uma coisa. Quer que eu diga?
— Diga, negra boba.

— Sei que aquele moço vem. Diz-que vem. Diz-que vem...
— Ah quem foi que te disse, negra boba?

— Vem buscar Sinhazinha pra ele. De noite...
— Cala já essa boca, negra boba!

— ... leva Sinhá pr’um quarto grande, enfeitado de renda.
Depois faz um dormezinho mansinho...
— Boba…

Sinhá-moça amoleceu os olhos num sorriso.
A rede envolveu-se no seu corpo
como pele de uma fruta madura.


BOPP, Raul. “Mucama”. In: Urucungo (1932): Poemas Negros. In: Poesia Completa de Raul Bopp. Rio de Janeiro: José Olympio Editora, 2014, p. 206.

 

Projeto de Pesquisa: Tradição e ruptura na poesia de senhor de engenho: imagens da mulher (FALE/ILC/UFPA)
Coordenadora: Profa. Dra. Angela Teodoro Grillo
Bolsista: Ana Lígia Rodrigues Drago (Bolsa CNPq/Universal)