Hortênsia
A professora me ensina
que Hortênsia é saxifragácea.
Mas no moreno de Hortênsia,
na cabeleira de Hortênsia,
no busto e buço de Hortênsia,
O que eu diviso é uma graça
mais estranha que a palavra
saxifragácea.
Hortênsia, jardim trancado
onde sei que o namorado
percorre umbrosos canteiros,
contando depois pra gente.
Oi namorada dos outros,
oi outros que não se calam,
fazem só para contar!
O namorado de Hortênsia
me ensina coisas diversas
do ensino da escola pública.
Eu sei, eu percebo, eu sinto
que Hortênsia (existe a palavra?)
é sexifragrância.
ANDRADE, Carlos Drummond de. “Hortênsia”. In: BOITEMPO II (MENINO ANTIGO). In: Nova Reunião: 23 Livros de Poesia. São Paulo: Companhia das Letras, 2015, p. 668.