Manuel Ignácio da Silva Alvarenga (1749-1814)
Heroida
Theseo a’ Ariadna
Inconstante Ariadna ambiciosa,
Que, por cobrir a feia aleivosia,
Depois de ser perjura hes a queixosa:
Essas asperar queixas, qe m’envia
Teu falso coração, formosa ingrata,
Já não são como as queixas d’algum dia.
Tudo a fiel memoria me retrata.
Fui a tua esperança, o teo conforto:
Agora sou o Roubador, Pirata.
Quizera o Ceo que me chorassem morto,
(Por não sentir as penas, que hoje sinto)
Antes de ver da infausta Creta o porto
Achei de sangue humano farto, e tinto
Homem, e touro o monstro, que espalhava
Morte e terror no cego Labyrintho.
Vi lançar-se da torre, que habitava
O Artifice engenhoso; e como aos ares
Sobre as azas de cêra se entregava.
Filho infeliz, que déste o nome aos mares,
Quanto inveja theseo a tua sorte,
Depois de ter chegado aos Patrios Lares!
Temeste (eu não nego) a minha morte,
Mudavel Ariadna! O laço estreito
De hum novo, e puro amor julguei peito a peito.
Livrei a Patria do fatal tributo;
Mas o premio d’este victoria
Era gozar do nosso amor o fruto.
Que breve, oh Deoses, foi a minha gloria!
Já sobre a Náo Cecropida nos vemos,
E eu me julgo feliz: doce memoria!
Reina a calma no mar; e nós perdemos
De vista a Creta: geme felizmente,
E escuma o sal batido por cem remos.
Quatro vezes da noite descontente
Rasgou a branca aurora o véo sombrio,
Abrindo as aureas portas do Oriente.
Quando vimos o bosque e a foz do rio
Alegre, e socegado; os Marinheiros
Conhecerão de longe a verde Chio.
Usamos logo os montes, e os outeiros
Offerecendo aos Deoses tutelares
Huma branca novilha e dous cordeiros.
No bosque inda fumavão os altares:
Tu dormias: as novens se amontoão,
E principião a engrossar-se os mares.
Corro a firmar as ancoras: já soam
Das ondas os rochedos açoitados,
E os ventos, e os trovões o Mundo atroão,
Faltou a amarra: a meo pezar os fados
(Que tristisssimos Fados!) me levarão
Co’ as negras tempestades conjurados.
Sabe o Ceo que fadigas me custarão
Então as tuas lagrimas, e penas,
Que as minhas cá de longe acompanharão
Sem leme já, sem mastro, e sem antenas,
Vão ludibrio dos mares, e dos ventos,
As tristes praias avistei de Athenas.
Ariadna occupou meos pensamentos:
Meo coração a teve sempre á vista
Para mais avivar os meos tormentos.
Que fruto lógra de huma tal conquiata,
Theseo amante, filho sem ventura?
Quem haverá que á tanta dor resista!
O velho Egeo, que os Immortaes conjura
Por ver alegre o fim dos meos perigos,
Teve no mar funesta supultura.
Entre aplausos da Patria, e dos Amigos
O triste coração suspira, e sente
O puro amor, e seos farpões antigos.
Por dar-te hum novo Reino impaciente,
Espero que, depondo furor tanto,
Netuno aplane as aguas c’ o tridente.
Duas Náos tenho prontas; mas em tanto
Espalha a fama por diversas partes,
Que o moço Bacho te enxugara o pranto.
Que ambiciosa ao ver os estandartes
Do alegre Indiano, e seos cabellos louros,
Facil com elle o meo amor repartes.
Se Reino, ou fama, ou Glória entre os vindouros
Busca a tua ambição n’hum ser divino,
Eu sou Theseo, Athenas tem thesouros.
Egeo sahio do Reino Neptuniano:
Na fatidica náo aventureiro
Eu vi o rosto irado ao Ponto Euxino.
Não foi Jason, nem Hercules primeiro
Combater c’os Dragões… tu suspiraste,
Vendo encher o meo nome o mundo inteiro.
Inda me lembra o dia, que me paertaste
C’o a minha a tua mão: dos nossos laços
Por testemunha o mesmo Ceo chamaste.
Tu não viste correr longos espaços,
Que desculpão o frio esquecimento;
E chego á ver-te alhêa n’outros braços?
He esta a fé devida ao juramento?
Responde ingrata, desleal, mais dura
Do que a rocha, e mais varia do que o vento!
Saião do seio da lagoa escura.
Que o mesmo Jove de offender recêa,
Negras furias, que o meo temor conjura.
Empunhe a ingrata o tyrso, e sobre a arêa
D’huma praia deserta os Tigres dôme,
Com que o seo novo amante se recrêa.
Com tanto que amor, que me consôme,
Em odio se converta… ah que eu delirio,
E não posso esquecer-me do seo nome!
Ventos, que me obrigastes ao retiro,
Levai minha ternissima saudade;
Conheça embora a aingrata que eu suspiro
Possão servir de exemplo em toda a idade
Os nossos nomes, despertando a história
Do meo Amor, da tua variedade.
Sirva este meu tormento á tua gloria:
Pague eu emnora a culpa do meo fado;
E roube-me das mãos outro a victoria.
Porque não fui do Monstro devorado!
A minha desventra me guardava,
Porque fosse depois mais desgraçado
Frondosos arvoredos, onde estava
Ariadna cruel, quando dormia,
E a meo pesar a onda me levava:
Vós, amarella flores, tu sombria,
Musgosa gruta, onde a infiel descança,
Mostrai-lhe a minha imagem noite e dia:
Eu era o seo amor, sua esparança,
O ultimo… o primeiro… ó ceos! perjura!
Quanto me custa esta criel lembrança!
Não ha mais que esperar da sorte dura.
Voai, remorsos, á vingar-me: ao menos
Rodeiai-a no seio da ventura;
E turbai seos dias mais serenos.
ALVARENGA, Manoel I. da Silva. “Heroida”. In: BARBOSA, Januário da Cunha (org). Parnaso brasileiro, ou Coleção das melhores poesias dos poetas do Brasil, tanto inéditas, como já impressas. Rio de Janeiro, RJ: Tipografia Imperial e Nacional, 1829.
Projeto de Pesquisa: Tradição e ruptura na poesia de senhor de engenho: imagens da mulher (FALE/ILC/UFPA)
Coordenadora: Profa. Dra. Angela Teodoro Grillo
Bolsista: Fabrícia Paraíso de Araújo (PIBIC/ UFPA)