Raimundo Correa (1859-1911)
Lucíola
A Arthur Azevedo
Quando em frente ao palácio iluminado
Tu saltaste do coche, triunfante,
O povo abriu-se em alas, humilhado,
A o teu olhar magnético, humilhante.
E então passaste altiva e radiosa.
Cadenciando músicas no andar,
E embebendo na essência voluptuosa
De emanações balsâmicas ao ar…
E ao transpor o portal esplendoroso,
Ouvia-se inda o mágico arruído
Do arrastar de teu pé leve e nervoso,
Nas escadas de mármore luzido…
No salão, rodeando-te os convivas,
Tanta lisonja urdiram-te; porém
Tinhas a tudo punhaladas vivas,
No sorriso, de um áspero desdém.
As demais damas mordiam-te com os olhos
Onde da inveja coruscava a imagem,
As joias te mirando, e os bastos folhos
Da roçagante e esplêndida roupagem.
E o teu lábio cuspia o escárnio cm roda
Aos bardos que lançavam-te, através
Dos madrigais ridículos da moda,
Os corações vazios aos teus pés…
Mas depois vi vergar teu corpo exausto
E a tua face confrangida e mesta
Pelejar, nos relâmpagos do fausto,
No esplendor babylonico da festa.
Alguém que em tal momento entrou por certo
No instantâneo delíquio te prostrou,
Foi alguém que, èm teu lábio ao riso aberto,
O toxico da magoa derramou…
E esse fantasma ia talvez passando
Entre as vascas da luz adamantina,
Como o espectro de Afonso atro o execrando
No funesto noivado de Izolina.
Elle é que o teu candor na onda cruenta
Fez rojar do seu torpe desvario,
Como os destroços de hórrida tormenta
Na correnteza túrbida de um rio…
Único sol que te desfez o gelo!...
Oh! deviam, em trágica desordem,
As víboras da cólera mordê-lo,
Como da mágoa as víboras te mordem
Tragar devia um vórtice implacável,
Diabólico, vulcânico, infernal,
A quem a estátua alvíssima, inefável,
Do pudor derrubou do pedestal
Por ele só— Lucíola maldita—
Velas em risos cínicos, descrentes,
O mundo cambiante que palpita
Dos sentimentos íntimos que sentes!
E aí! quem notando a contração acerba
Do teu lábio, acoimando-te, disser
Que em ti personificam-se a soberba
E todas as vaidades da mulher,
Engana-se! Tu sentes; si o profundo
E nobre sentimento ao mundo encobres
E que, mulher, conheces bem que o mundo
Sempre zombou dos sentimentos nobres!...
1880.
CORREIA, Raimundo. “Lucíola”. In: Symphonias. Rio de Janeiro; Typ. de Fernandes, Ribeiro & C., 1883, p. 39.
Projeto de Pesquisa: Tradição e ruptura na poesia de senhor de engenho: imagens da mulher (FALE/ILC/UFPA)
Coordenadora: Profa. Dra. Angela Teodoro Grillo
Bolsista: Ana Lígia Rodrigues Drago (Universal/CNPq)