Mil Marias: Grupo de Pesquisa de Imagens da Mulher na Poesia de Língua Portuguesa (FALE/ ILC/ UFPA/ CNPq)                         

 

Júlia Cortines (1868-1948)


Marca d'água

Em vão

 


É a ilusão, bem vejo: em tua fronte
Inda fulge um resplendor de aurora.
Tens o mesmo sorriso com que outrora
Deliciavas a minha alma insonte.

Debalde apontas para além do monte
Prainos que a ardência do verão enflora;
Asas vibrando pelos céus em fora,
Céus sem nuvens, sem raias o horizonte…

Esta grandiosa e esplêndida paisagem
Desenrolada a meu olhar – miragem
De intensidade e luz – que importa a uma alma

Que só deseja, antes da noite escura,
Haurir da tarde um pouco de frescura,
Gozar um pouco do silêncio e calma?!


CORTINES, Júlia. “Em vão”. In: Versos e Vibrações / Júlia Cortines; apresentação Gilberto Araújo. – Rio de Janeiro : Academia Brasileira de Letras, 2010, p. 185.

 


Marca d'água

XII

 


Se te lembras de mim ou não indaga
Meu coração, que em dúvida se cansa.
É como a onda móbil a incerteza:
Entre as flores das plagas e a crueza
Da rocha nos sacode e nos balança.

Ah! não! não posso crer que um só momento
Me tenhas esquecido. Entanto chora
Minha alma que te acusa e que te ofende,
Ó luz formosa que em meu céu resplende,
E de raios inunda a minha aurora!

Perdoa. Mas responde: por que ficas
Longe de quem te adora e te quer tanto?
Por que me deixas só neste deserto,
Onde vagueia o meu olhar incerto
Que enturvam ondas de saudoso pranto?

Olha: a tua cadeira está vazia.
Vem ocupá-la. Vê quanta ansiedade
Me oprime o seio por te ver distante!
Volta para o meu lar o passo errante,
Se não queres que eu morra de saudade.

Janeiro.


CORTINES, Júlia. “XII”. In: Versos e Vibrações / Júlia Cortines; apresentação Gilberto Araújo. – Rio de Janeiro : Academia Brasileira de Letras, 2010, p. 101.

 


Marca d'água

XIV

 


Ao teu lado me sinto venturosa.
Partes: e logo a imensa soledade
Aos meus olhos se estende pavorosa.

O sofrimento súbito me invade
O coração, minha alma entristecida
Envolve-se no crepe da saudade.

Mas inda ouço a tua voz querida,
E a tua mão, oculta, me sustenta
Em meio às dores ásperas da vida.

Eis que rebrama a ríspida tormenta
E me arrebata e leva a luz divina,
O casto sonho que meu peito alenta.

A dúvida, que assombra e que alucina,
Se precipita, e morde, e dilacera
O coração co’a presa viperina.

Dessa atribulação ai! quem me dera
Voltar ainda às crenças do passado,
Tornar-me ainda no que dantes era.

Veria então brilhar iluminado
O horizonte de vida, aberto e puro,
Em vez de pôr o olhar, triste e magoado,

Nas solidões imensas do futuro...

Abril.


CORTINES, Júlia. “XIV”. In: Versos e Vibrações / Júlia Cortines; apresentação Gilberto Araújo. – Rio de Janeiro : Academia Brasileira de Letras, 2010, p. 103.

 


Marca d'água

XVIII

 


Jurei amar-te sempre, e, acelerado,
Voasse o Tempo, que da poesia
Ceifa os lírios, e nunca o imaculado
Lírio do meu afeto ceifaria.

E, se a Morte te houvesse arrebatado,
Fiel ao juramento inda seria,
E contigo no féretro encerrado
Meu coração à terra desceria.

Jurei amar-te sempre, acreditando
Poder desafiar sem medo a sorte,
Estes monstros cruéis desafiando.

Jurei amar-te sempre, e amar-te-ia
Sempre, se o amor, que afronta o Tempo e a Morte,
Conseguisse afrontar a cobardia...

Novembro.


CORTINES, Júlia. “XVIII”. In: Versos e Vibrações / Júlia Cortines; apresentação Gilberto Araújo. – Rio de Janeiro : Academia Brasileira de Letras, 2010, p. 108.

 


Marca d'água

XVI

 

... C’est une chose indigne, lâche, infàme,
De s’abaisser ainsi, jusqu’à trahir son âme1
.
Molière, Le Misanthrope.


A vida é triste, e curta, e cheia de amargura.
Por que desceste, pois, ó mísera criatura,
|Do imaculado altar do meu imenso amor;|
Para baixo cair, tão baixo, que o negror
Da infâmia, que te envolve a fronte, estremecida
Há bem pouco, me faz, de súbito ferida
De espanto e de terror, diante de ti recuar,
Do meu imenso amor despedaçando o altar?

Por que, durante o longo espaço de três anos,
De uma ausência cruel, em que dos desenganos
A taça, sem repulsa, o meu lábio esgotou,
E, perdoando e adorando, a minha alma elevou,
Para a tua abrigar, um grandioso templo,
Cuja ruína agora, em lágrimas, contemplo,
Aguçaste, infeliz, as farpas da traição,
Para delas crivar meu pobre coração?

Eras sincero e bom. O que é, pois, que te leva
Dos rumores da aurora ao silêncio da treva?
A ti, outrora forte, enérgico, viril,
À ação mais degradante, à mais baixa, à mais vil?
E que força brutal te sacode e balança
Em brusco movimento, e rápida te lança
Em pós de uma quimera implacável e vã,
Que hoje brilha e fulgura e se apaga amanhã?...

Vai! E que se transforme o antigo santuário
Do teu seio num leito escuro e mortuário,
Onde possa dormir num olvido sem fim
Toda a recordação que tiveres de mim!
Vai! E que nunca alguém, que depõe sua sorte
Em tua mão, que rasga os abismos da morte,
Se levante, como eu, num ímpeto de dor,
Para cuspir-te à face a palavra – traidor!

Agosto.


CORTINES, Júlia. “XVI”. In: Versos e Vibrações / Júlia Cortines; apresentação Gilberto Araújo. – Rio de Janeiro : Academia Brasileira de Letras, 2010, p. 106.

 

Projeto de Pesquisa: Tradição e ruptura na poesia de senhor de engenho: imagens da mulher (FALE/ILC/UFPA)
Coordenadora: Profa. Dra. Angela Teodoro Grillo
Bolsista: Ana Lígia Rodrigues Drago (Universal/CNPq)