Mil Marias: Grupo de Pesquisa de Imagens da Mulher na Poesia de Língua Portuguesa (FALE/ ILC/ UFPA/ CNPq)                         

 

Júlia Cortines (1868-1948)


Marca d'água

A Estátua

 

(Paráfrase)


Maravilhosamente bela, a grega
Vênus: de pé, o corpo nu surgindo
Da túnica, que a mão sustenta, e achega
À anca, num gesto gracioso e lindo.

E, se a vista se eleva, então surpresa
Para perante o rosto que ela inclina,
E admira dessa esplêndida beleza
A expressão diabólica e tigrina

E estranho sentimento nos tortura,
– Misto de dor, de cólera e piedade,
Ao ver-lhe na divina formosura
Impresso o cunho da ferocidade.

1890.


CORTINES, Júlia. “A Estátua”. In: Versos e Vibrações / Júlia Cortines; apresentação Gilberto Araújo. – Rio de Janeiro : Academia Brasileira de Letras, 2010, p. 46.

 


Marca d'água

D. Quixote

 


Quanto campeador, ó Cavaleiro Andante,
Como tu, não deixou a sua rude aldeia
Para à luta correr e ir procurar distante
A glória, pela qual avidamente anseia!

Olha: em vez dum moinho, há um válido gigante;
Em lugar duma venda, um palácio pompeia;
Ao longe lhe sorri uma princesa amante,
|Tão bela como a tua ideal Dulcineia.|

Quantos, sem perceber o semblante enfadonho
Da verdade, não vão por uma estrada vasta,
Caminhando através da beleza e do sonho,

Caminhando através da sublime loucura
Que eleva o olhar de quem pela terra se arrasta
Para o bem, para a glória e para a formosura!


CORTINES, Júlia. “D. Quixote”. In: Versos e Vibrações / Júlia Cortines; apresentação Gilberto Araújo. – Rio de Janeiro : Academia Brasileira de Letras, 2010, p. 143.

 


Marca d'água

Um retrato

 

(A Laura Cortines)


É alta e esbelta, pálida e franzina,
De grandes olhos cheios de tristeza;
Coroa-lhe a cabeça altiva, presa
Em farta trança, a cabeleira fina.

Não tem a formosura que fascina,
Nem as linhas corretas da beleza,
E é preciso que diga com franqueza:
Falta-lhe ainda a graça feminina.

No trato é fria, e às vezes descuidosa;
Detesta o baile e as valsas doudejantes;
Gosta de versos e também de prosa.

Poderia ajuntar mais um defeito...
Mas suponho que os traços são bastantes,
– Dou-te, pois, o retrato como feito.

1887.


CORTINES, Júlia. “Um retrato”. In: Versos e Vibrações / Júlia Cortines; apresentação Gilberto Araújo. – Rio de Janeiro : Academia Brasileira de Letras, 2010, p. 65.

 

Projeto de Pesquisa: Tradição e ruptura na poesia de senhor de engenho: imagens da mulher (FALE/ILC/UFPA)
Coordenadora: Profa. Dra. Angela Teodoro Grillo
Bolsista: Ana Lígia Rodrigues Drago (Universal/CNPq)