Júlia Cortines (1868-1948)
O Ninho
Lembro-me ainda: foi numa gravura
Que vi de uma ave a prole pequenita,
Em roto ninho, que lançou da altura
O vento, a resvalar na crespa fita
De um rio. E a mãe a vê, e corre, e fita
Espavorida as águas; a amargura
Lhe estala o coração; por sobre a escura
Corrente paira e se retorce aflita,
Enquanto a onda indiferente desce,
Assim como impassível à demência
Das lágrimas, dos gritos e da prece,
Da vida o rio o ninho perfumoso
Das castas ilusões da adolescência
No arrebata e leva pressuroso.
1887.
CORTINES, Júlia. “O Ninho”. In: Versos e Vibrações / Júlia Cortines; apresentação Gilberto Araújo. – Rio de Janeiro : Academia Brasileira de Letras, 2010, p. 47.
Única Lembrança
(À Memória de minha mãe)
Recordo-me de tê-la visto um dia,
De pé, no quadro azul de uma janela
Rasgada sobre a radiosa tela
Do horizonte, onde os olhos embebia…
Uma expressão benevolente ungia
Os seus lábios, e, assim como se aquela
Fronte de um anjo fosse, em torno dela
O sol um largo resplendor abria.
Foi momentânea, porém foi tão viva
A visão desse vulto angelical,
Que a distância a colore, o tempo a aviva,
E abre-se-me da vida no areal
De solitude cálida e aflitiva
Como um refrigerante palmeiral.
1888.
CORTINES, Júlia. “Única lembrança”. In: Versos e Vibrações / Júlia Cortines; apresentação Gilberto Araújo. – Rio de Janeiro : Academia Brasileira de Letras, 2010, p. 49.
Projeto de Pesquisa: Tradição e ruptura na poesia de senhor de engenho: imagens da mulher (FALE/ILC/UFPA)
Coordenadora: Profa. Dra. Angela Teodoro Grillo
Bolsista: Ana Lígia Rodrigues Drago (Universal/CNPq)