Mil Marias: Grupo de Pesquisa de Imagens da Mulher na Poesia de Língua Portuguesa (FALE/ ILC/ UFPA/ CNPq)                         

 

Alberto de Oliveira (1859-1937)


Marca d'água

(M. Flores)

 


Sonhava que te via.
Triste e só me encerrará no aposento
E escrevia... não sei o que escrevia!
Escrevia de amor e sentimento
Porque pensava em ti; talvez buscava
Expressar no papel, que olhava atento,
A infinita paixão com que te amava.

De pronto silenciosa,
Uma figura branca e vaporosa
Aparece-me, um braço palpitante
Toca-me o ombro, e nesse mesmo instante
Sinto contra o meu rosto, de elo em elo,
Desatar-se uma trança de cabelo...
Sobre meus lábios, como o arfar de um beijo,
Um ofego perpassa olente e brando;
Ergo os meus olhos e os teus olhos vejo
Que me estavam dulcíssimos olhando,
Mas tão perto se achavam que eu me tinha

Preso em êxtase e, em plácido desmaio,
Via na luz serena de seu raio
Descer tua alma e se abraçar com a minha.
Depois, leve, em meu rosto
Um beijo, melancólica, imprimiste,
E o teu olhar celeste
Em meu olhar de novamente posto,
Em voz baixa, mui baixa, me disseste:
— Escreves-me e estás triste
Porque ausente me julgas, pobre amigo;
Porém, não sabes já que, eternamente,
Longe embora de ti, vivo contigo?

Deste sonho acompanha-me a saudade,
Mas agora a razão tenho-a mais calma,
E a sós comigo penso: — Eis a verdade!
Como pode jamais estar ausente
Quem existe imortal dentro em nossa alma?


OLIVEIRA, Alberto de. “(M. Flores)”. In: Poesias. Rio de Janeiro, 1900, p. 350.

 


Marca d'água

Bilhete

 


Há mais de um mês tenciono ir visitar-te. A viagem
Atrai-me: que prazer um cavalo soltar
Desta aquela paragem,
Sentindo contra o rosto, em frescas ondas, o ar!

Penso como lá fora os campos e as colinas,
Sob os primeiros sois da primavera em flor,
Não se hão de salpicar de pequenas boninas...
Tudo á volta de abril deve cantar de amor.

E tu, com que feição, destes céus temperada,
Não me virás falar, leda, risonha e san,
Quando eu subir a escada
De teu lindo chalet que abre à luz da manhã!

Como e com que meiguice hás de sorrir, formosa,
Ao te dizer, assim como o fiz a outra vez,
Que, embora roube o tempo a uma vida afanosa,
Pretendo estar contigo um mês inteiro, um mês!

Voltarão para mim de novo as alegrias
Que a teu lado gozei e nunca mais suppos
Viessem com aquelles dias,
Que outros não vi jamais cheios de tanta luz!

Ora, estou resolvido a ir ver-te, enfim. Pudera!
Abafa o tédio aqui e é demais o calor!
Lá fora ensombra o valle um céu de primavera,
Tudo á volta de abril anda a cantar de amor.


OLIVEIRA, Alberto de. “Bilhete”. In: Poesias. Rio de Janeiro, 1900, p. 263.

 


Marca d'água

Espiral de fumo

 


Dentre os lábios sai deste que alli se embala,
Preso à boca o cachimbo e que olha o tecto e fuma;
Vaga essência imortal, cativa nesta sala,
Eis-me suspensa, a voar, como ligeira bruma.
O ar é leve, alongue-nos, subamos,
E se uma frincha tem lá em cima aquella
Porta ou janela
Vejamos!

Tudo fechado! tudo um cárcere medonho!...
Ora, subamos ainda. O teto desta casa
Deixa passar do poeta o pensamento, o sonho...
Tênue, na espira ideal, como uma ponta de asa,
Por ele fôra romperei também
E irei sonhar no esplêndido regaço
Do alto espaço,
Além!

Nem uma fresta, horror! tudo fechado, tudo!
Té quando aqui ficar, na ânsia que me devora?!
Mas se a fórmula que tenho eu de repente mudo?
Se em formosa visão eu me transformo agora?
Mãos à obra! sejamos-vingativa
Para com quem, sem me atender á queixa,
Aqui me deixa
Captiva.

Vou tomar a figura esbelta e voluptuosa
Da mais bela mulher que haja encantado a mente
De um poeta; e ao ver-me assim, — alma febrile ansiosa,
Elle, os braços, convulso, erguendo de repente,
Há de chamar-me... E eu sempre errante, a voar,
Fugindo irei, té me perder cansada,
Espiralada
No ar…


OLIVEIRA, Alberto de. “Espiral de fumo”. In: Poesias. Rio de Janeiro, 1900, p. 348.

 


Marca d'água

Extrema Verba

 


Quero-te aqui, minha somente! Os braços
Meus e o collo e a cabeça e a boca e o rosto!
Tu matarás todo o infernal desgosto,
Toda a amargura que me segue os passos.

Seja dia ao nascer, seja sol posto,
Ou chova ou torrem cálidos mormaços,
Tu me serás repouso aos membros lassos,
Minha somente, meu marmóreo encosto…

Em ti, como num céu que é meu agora,
As azas canse o espírito suspenso,
Sacie-se o ideal que me devora.

Vamos: dos seios mostra-me o thesouro,
Solta os cabelos e que eu morra, o incenso,
Bêbado, haurindo dessa nuvem de ouro.


OLIVEIRA, Alberto de. “Extrema Verba”. In: Poesias. Rio de Janeiro, 1900, p. 241.

 


Marca d'água

Immortal

 


Não ser eterna a tua formosura!
Essa marmórea tez, essa marmórea
Presença tua, teu olhar tão doce,
Teus rubros lábios, tua coma escura,
Tudo o que em ti traduz a pompa, a glória
Da mocidade, tudo eterna fôsse!

Do tempo a mão sacrílega poupasse
De teus contornos o supremo encanto,
A linha ideal, que me arrebata agora;
Ficasse a mesma tua eburnea face,
Tu ficaste a mesma e, a espádua o manto,
Voasses, rainha, pelos séculos fora;

E quando a fronte me alvejasse inteira,
Velho, trôpego já, me fosse dado
Vêr-te ainda uma vez, uma somente;
Mas vêr-te e ainda sentir esta cegueira
Doida por ti, mas vêr-te e, alvoroçado,
Tornar-me ás veias o meu sangue ardente;

Ver-te, como através de espessa bruma,
Em clima frio, o sol que por momento
Rompe, eleva-se, brilha e tudo invade
E por momento eu crer que de uma em uma
Voltam-me as ilusões, e o firmamento
Reaparece da extincta mocidade:

Vêr-te, e a febre que as têmporas me incende
Pulsar de novo, e novamente o peito
Bater-me do desejo á sede infinda;
E o céu que amo, o ar que aspiro, a luz que esplende,
Tudo ouvir que num cântico desfeito
Diz-me aos ouvidos: Estás moço ainda!

Goza! estás moço! mas um dia apenas!
Goza! ressuscitamos para dar-te
Num dia apenas quanto tens vivido.
— E, as mãos erguendo, eu tatear as pennas
Dos sonhos que espalhei por toda a parte,
— Aves de um dia que julguei perdido;

Vêr-te e morrer cantando, em voz ansiosa,
As sílabas de luz do poema de ouro
Que todos, moços, tanta vez cantamos,
Como ao nascer de uma manhã formosa
Casam-se aos raios do levante louro
Na mesma trova os sabiás nos ramos;

Vêr-te e morrer depois! que mais quisera?!
Meu doudo sonho! mas morrer, vibrante,
Trêmulo ainda de paixões, de zelos!

Inda o cheiro a beber da primavera
Nos teus vestidos e ainda palpitante
Minha boca a sumir nos teus cabelos!

Etu, sobre meu peito reclinada,
Com a mão nervosa me apertando a cinta,
A contar-me os teus últimos segredos...
Assim numa harpa antiga e abandonada
Alguém, saudoso da harmonia extincta,
Lembra-se um dia de correr os dedos;

E corda a corda, como na sombria
Face de um lago um frêmito perpassa,
Um frêmito de sons por ela corre;
Mas afinal ao somno em que jazia
Torna o instrumento. E o frêmito esvoaça,
Esvoaça ainda e vagaroso morre...


OLIVEIRA, Alberto de. “Immortal”. In: Poesias. Rio de Janeiro, 1900, p. 329.

 


Marca d'água

Neblina

 


Veiu, e fugiu-me... Alta, delgada, fria...
Fria, talvez, da bruma, da humidade;
Do andar aquela estranha majestade
Só se andasse uma estátua, é que a teria.

Solto o farto cabelo, na sombria
Onde as plantas lhe vêm. De uma piedade,
De uma ternura extrema e suavidade
O olhar nos doces raios se alumia.

E fugiu-me. Não foge, se o sol nasce,
A névoa assim, não foge à nuvem leve
Tão leve! nem tão leve a sombra no ar!

Oh! se a visse outra vez! Se a tua face
Visse eu de novo, aparição de neve,
Gosando todo o bem do teu olhar!

Voltei de tua casa
Cheio de amor. A minha fronte abraza.
Meus olhos, se os derramo
Em torno, em torno só te vêm, querida!
Teu nome está gravado em minha boca!
Todo o meu pensamento em ti se esconde,
E se minh'alma escuto, escuto a louca:
Eu te amo! Eu te amo!

Meu amor! Minha vida!
Já não sei que fazer; a cada instante
Chamo-te delirante,
Chamo-te! E á voz de amor com que te chamo
O coração responde:
Eu te amo! Eu te amo!


OLIVEIRA, Alberto de. “Neblina”. In: Poesias. Rio de Janeiro, 1900, p. 310.

 


Marca d'água

Phantástica

 


Erguido em negro marmore luzidio,
Portas fechadas, num mistério enorme,
Numa terra de reis, mudo e sombrio,
Sono de lendas um palácio dorme.

Torvo, imoto em seu leito, um rio o cinge,
E, á luz dos novilúnios argentados,
Vê-se em bronze uma antiga e bronca shinge
E lamentam-se arbustos encantados.

Dentro, assombro e mudez! quedas figuras
De reis e de rainhas; penduradas
Pelo muro panóplias, armaduras
Dardos, elmos, punhais, piques, espadas.

E inda ornada de gemmas e vestida
De tyros de matiz de ardentes côres,
Uma bela princesa está sem vida
Sobre um toro fantástico de flores.

Traz o collo estrellado de diamantes,
Mais claro ainda do que a espuma jônia,
E rolam-lhe os cabelos abundantes
Sobre peles nevadas da Issedonia.

Entre o mudo esplendor dos artefactos,
Em seu régio vestíbulo da assombros,
Há uma guarda de anões estupefactos,
Com trombetas de ébano nos hombros.

E o silêncio por tudo! nem de um passo
Dão signal os extensos corredores;
Só a lua, alta noite, um raio baço
Põe da morta no tálamo de flores.


OLIVEIRA, Alberto de. “ Phantastica”. In: Poesias. Rio de Janeiro, 1900, p. 14.

 

Projeto de Pesquisa: Tradição e ruptura na poesia de senhor de engenho: imagens da mulher (FALE/ILC/UFPA)
Coordenadora: Profa. Dra. Angela Teodoro Grillo
Bolsista: Ana Lígia Rodrigues Drago (Universal/CNPq)