Raimundo Correa (1859-1911)
A Avó
A Hugo Leal
Este infante de olhar e faces inocentes
Me repele, e porque, quando me achego dele?
Quando com as mãos sem força, engelhadas,trementes,
O afago, porque chora e porque me repele?!
A velhice tornou meu semblante tão feio,
Que as crianças que beijo, a meigo e acaricio
Já não inspiro amor, só inspiro receio?!
Meu riso é hoje acaso um momo tão sombrio,
Que este infante que embalo, este que de mim veio,
Que é meu neto, este até, chora quando me rio?!
E, como ele, contudo, eu sou fraca, e, como elle,
Eu não tenho também nem cabelos, nem dentes...
Ai! quando o vou beijar, porque é que rne repelle
Este infante de olhar e faces inocentes?!
CORREIA, Raimundo. “A Avó”. In: Symphonias. Rio de Janeiro; Typ. de Fernandes, Ribeiro & C., 1883, p. 61.
Cauchemar
Penetro a estância fúnebre e sombria,
Extremo leito da mulher amada;
E ergo a lauza, que a cobre—despojada
De toda a graça ideal, que revestia;
Da belleza, onde um casto amor sorria,
Pudica e doce, nada resta, nada;
Núa de carnes, só a branca ossada,
Que apalpo e sinto fria, fria, fria..
E, o sono seu eterno interrompendo,
Clamo.. Da noite o vento álgido corta,
Cai neve e é gélido o esplendor da lua…
Então, a erguer se, pávida, tremendo
De frio e com pudor, me diz a morta:
Góbre-me! Há tanto frio e estou tão nua!
CORREIA, Raimundo. “Cauchemar”. In: Aleluias. Rio de Janeiro; Companhia Editora Fluminense, 1891, p. 103.
Conchita
A DEUS aos filtros da mulher bonita;
A esse rosto hespanhol, pulchro e moreno;
Ao pé, que no bolero... ao pé pequeno,
Pé que, alígero e célere, saltita...
Lyra do amor, que o amor não mais excita,
A um silêncio de morte eu te condeno;
Despede-te; e um adeus, no último threno.
Soluça às graças da gentil Conchita:
A esses, que em ondas se levantam, seios
Do mais cheiroso jambo; a esses quebrados
Olhos meridionaes de ardência cheios;
A esses lábios, enfim, de nácar vivo.
Virgens dos lábios de outrem, mas corados
Pelos beijos de um sol quente e lascivo.
CORREIA, Raimundo. “Conchita”. In: Poesias. 4 ed. São Paulo; Unesp, 1898, p. 62.
De certo, eu poderia
DE certo, eu poderia
A essa mortal, paixão
E atroz melancolia
Sobrepor um nariz de papelão;
E, rindo e cachinando,
— Excêntrico jogral—
Acompanhar o bando
De mascarados d'este carnaval;
E as jovens damas belas
Seguindo, em sanha alvar,
O gordo braço d'ellas
Escandalosamente beliscar;
Ás multidões, nas ruas,
Declamar com vigor,
E com chacotas nuas
A gente séria atarantada pôr;
Pôr o mal, que se embebe
Nos próceres, ao sol,
Oferecendo à plebe,
Com acrimônia; uns frascos de fenol;
Provocar a quem passa,
Só p’ra me divertir,
E aos logistas, por graça,
Tabuletas trocar, vidros partir;
Sem medo, a honestidade
Afrontar; e em tropel
Pôr tudo, na cidade,
levantando uma torre de Babel;
E, sem ousar tocar-me,
Indifferente e até
Timorato, um gendarme
Em cada esquina ver, quedo e de pé;
(Porque a polícia austera
Não se atreve a fazer
O que talvez fizera,
Se eu fosse um fraco e inofensivo ser.)
Da burguesia os risos
Incitar sobre mim,
Ao tilintar dos guizos
Presos ás minhas roupas de Arlequim;
Ser como um ébrio, um louco,
Um clown.. Sinto, porém,
Que o meu soluço rouco,
Por entre as chuvas, se distingue bem.
Minhas lágrimas rolam;
E as lágrimas, mulher,
O papelão descolam
Da máscara risonha, que eu trouxe.
Agosto, 84.
CORREIA, Raimundo. “De certo, eu poderia”. In: Versos e Versões. Rio de Janeiro; Typ. e Lith Moreira & C., 1887, p. 151.
Desdéns
Realçam no marfim da ventarola
As tuas unhas de coral — felinas
Garras, com que, a sorrir, tu me assassinas,
Bela e feroz... O sândalo se evola;
O ar cheiroso em redor se desenrola;
Pulsam os seios, arfam as narinas...
Sobre o espaldar de seda o torso inclinas
Numa indolência mórbida, espanhola
Como eu sou infeliz! Como é sangrenta
Essa mão impiedosa, que me arranca
A vida aos poucos, nesta morte lenta!
Essa mão de fidalga, fina e branca;
Essa mão, que me atrai e me afugenta,
Que eu afago, que eu beijo, e que me espanca!
CORREIA, Raimundo. “Desdéns”. In: Poesias. 4 ed. São Paulo; Unesp, 1898, p. 83.
Despedidas
LÚCIA teve um desmaio no momento
Em que Amphryso partiu; a loira Alice,
De Antenor despedindo-se, lhe disse:
Vai que contigo vai meu pensamento!
Fez Julia a Arthur um grave juramento;
E Amélia, num acesso de doidice.
Protestou que, se a Alfredo não mais visse,
Não na veriam mais, que num convento!
Tu não! Nem desse olhar o azul celeste
Desmaiou; nem de frases prévio estudo,
Como as outras fizeram, tu fizeste;
Quando eu parti, teu lábio esteve mudo;
Tu, formosa Leonor, nada disseste,
Mas, sem nada dizer, disseste tudo!
CORREIA, Raimundo. “Despedidas”. In: Poesias. 4 ed. São Paulo; Unesp, 1898, p. 115.
Graziella
O sol vivificante, a áurea selagem
Do céu da Itália limpo e transparente,
As ondas verdes, a anhelante aragem
Aromática, prospera, frequente ;
E toda essa romântica paisagem
Do berço dos Rossini, onde se sente
Hoje ainda o resfolego, a bafagem
Das bocas do Vesúvio incandescente,
Esse conjunto harmônico e risonho
Verteu-te n’alma de poeta o sonho
Místico e oriental, que se define
Na tua amante imaginária e bella,
Na doce e suavíssima Graziella,
Suavíssimo e doce Lamartine.
CORREIA, Raimundo. “Graziela”. In: Symphonias. Rio de Janeiro; Typ. de Fernandes, Ribeiro & C., 1883, p. 97.
II
Ser moça e bela ser, porque é que lhe não basta?
Porque tudo o que tem de fresco e virgem gasta
E destroi? Porque atrás de uma vaga esperança
Fatua, aérea e fugaz, frenética se lança
A voar, a voar?...
Também a borboleta,
Mal rompe a nympha, o estojo abrindo, a vida e inquieta,
As antennas agita, ensaia o voo, adeja;
O finíssimo pó das asas espaneja;
Pouco habituada à luz, a luz logo a embriaga;
Boia do sol na morna e rutilante vaga;
Em grandes doses bebe o azul; tonta, espairece
No ether; vôa em redor; vai e vem; sobe e desce;
Torna a subir e torna a descer; e ora gyra
Contra as correntes do ar; ora, incauta, se atira
Contra o tojo e os sarças; nas púas lancinantes
Em pedaços faz logo as asas scintillantes;
Da tênue escama de ouro os resquícios mesquinhos
Presos lhe vão ficando á ponta dos espinhos;
Uma porção de si deixa por onde passa,
E, enquanto há vida ainda, esvoaça, esvoaça,
Como um leve papel solto à mercê do vento;
Pousa aqui, vôa além, até vir o momento
Em que de todo, enfim, se rasga e dilacera...
O borboleta, pára! O mocidade, espera!
CORREIA, Raimundo. “II”. In: Poesias. 4 ed. São Paulo; Unesp, 1898, p. 8.
Ixion
A deusa amante e desejada é ela!
Todo o amor em meu seio arfa e redunda,
Abraço-a — e verga ao braço que a circunda;
Beijo-a — e, corando, ainda se faz mais bela.
Abraço a Juno ou, louco, abraço aquella
Nuvem de ouro illusoria e vagabunda?!
Minha ventura, ó céus, é tão profunda,
Tão larga e tanta, que eu duvido dela!
Que lindos olhos! Que venusto e lindo
Gesto... Beijo-a de véras, ou suponho
Beijá-la só, num sonho doce e infindo?...
Não! Durmo; o despertar vai ser medonho!
Durmo; e sonho de certo, assim dormindo!
Quem me assegura que eu não sonho? Eu sonho
CORREIA, Raimundo. “Ixion”. In: Poesias. 4 ed. São Paulo; Unesp, 1898, p. 60.
Lucíola
A Arthur Azevedo
Quando em frente ao palácio iluminado
Tu saltaste do coche, triunfante,
O povo abriu-se em alas, humilhado,
A o teu olhar magnético, humilhante.
E então passaste altiva e radiosa.
Cadenciando músicas no andar,
E embebendo na essência voluptuosa
De emanações balsâmicas ao ar…
E ao transpor o portal esplendoroso,
Ouvia-se inda o mágico arruído
Do arrastar de teu pé leve e nervoso,
Nas escadas de mármore luzido…
No salão, rodeando-te os convivas,
Tanta lisonja urdiram-te; porém
Tinhas a tudo punhaladas vivas,
No sorriso, de um áspero desdém.
As demais damas mordiam-te com os olhos
Onde da inveja coruscava a imagem,
As joias te mirando, e os bastos folhos
Da roçagante e esplêndida roupagem.
E o teu lábio cuspia o escárnio cm roda
Aos bardos que lançavam-te, através
Dos madrigais ridículos da moda,
Os corações vazios aos teus pés…
Mas depois vi vergar teu corpo exausto
E a tua face confrangida e mesta
Pelejar, nos relâmpagos do fausto,
No esplendor babylonico da festa.
Alguém que em tal momento entrou por certo
No instantâneo delíquio te prostrou,
Foi alguém que, èm teu lábio ao riso aberto,
O toxico da magoa derramou…
E esse fantasma ia talvez passando
Entre as vascas da luz adamantina,
Como o espectro de Afonso atro o execrando
No funesto noivado de Izolina.
Elle é que o teu candor na onda cruenta
Fez rojar do seu torpe desvario,
Como os destroços de hórrida tormenta
Na correnteza túrbida de um rio…
Único sol que te desfez o gelo!...
Oh! deviam, em trágica desordem,
As víboras da cólera mordê-lo,
Como da mágoa as víboras te mordem
Tragar devia um vórtice implacável,
Diabólico, vulcânico, infernal,
A quem a estátua alvíssima, inefável,
Do pudor derrubou do pedestal
Por ele só— Lucíola maldita—
Velas em risos cínicos, descrentes,
O mundo cambiante que palpita
Dos sentimentos íntimos que sentes!
E aí! quem notando a contração acerba
Do teu lábio, acoimando-te, disser
Que em ti personificam-se a soberba
E todas as vaidades da mulher,
Engana-se! Tu sentes; si o profundo
E nobre sentimento ao mundo encobres
E que, mulher, conheces bem que o mundo
Sempre zombou dos sentimentos nobres!...
1880.
CORREIA, Raimundo. “Lucíola”. In: Symphonias. Rio de Janeiro; Typ. de Fernandes, Ribeiro & C., 1883, p. 39.
Luizinha
(A Gaspar da Silva)
A Luizinha é gárrula e ridente!
Nunca está quieta. A todo o mundo encanta
Seu malicioso olhar inteligente.
Sorri, doudeja, papagueia e canta.. .
Como que, louco, um rouxinol não cessa
De gorgeiar-lhe dentro da garganta.
Ardem-lhe n'alma cândida e travessa
Soes e festas. A idade lhe colora
A face, e aloira-lhe a infantil cabeça.
Eu vejo-a nos jardins às vezes, ora
Brincando, ora fugindo, ora correndo
Por áleas, cheias de festões, afora. . .
Vejo-a, e cuido uma dryade estar vendo,
Por entre os claros de uma selva basta,
Aparecendo e desaparecendo.
Ela me delicia, ela me arrasta
A ideia, por suavíssimo declivio,
Ao vale azul de uma poesia casta.
E ora vejo-a, a ameigar, como um alívio,
O Avô — ancião de rosto austero e duro,
De níveas barbas e cabelo níveo — ;
É como, num diálogo, o Futuro
Junto ao Passado encanecido, ou como
Uma violeta aos pés d'um velho muro.
Fita-a a Mãe com ternura e, assomo a assomo,
Reproduzida vê sua alma inteira
N'este gracioso e pequenino tomo.
Uma essência balsâmica e fagueira
O seu jasmineo corpo, em torno, expira,
Como a flor virginal da laranjeira.
E ela, quando os dois olhos de saphira
Duas amêndoas lúcidas, lavadas
De luar, para mim vira e revira,
Eu, às regiões siderais, consteladas,
Lhe ascendo, pelos raios da pupila,
Como por mil esplêndidas escadas;
Sua luz, vai-me ao íntimo, tranquilla...
Tal, no fundo de um pântano, uma estrella
Buliçosa reluz, lânguida oscilla. . .
Belleza ingênua ! Ingenuidade bella!
Como realçaria, romanesca,
No claro-escuro de uma alegre tela!
Sua risada trina pittoresca;
E é cada beijo seu, para os sedentos,
Como um límpido copo de água fresca.
Como vaga que, em músicos acentos,
Arqueja em margens de nácar, lhe arqueja
A voz na boca, em murmurinhos lentos.
Franze-lhe o fino lábio de cereja
O riso; a dor jamais.. Trêfega e linda
Papeia, e, sem parar, arfa e moureja.
Moureja, e aquelle mourejar não finda;
E aquele afã de júbilo, em que estua,
Para findar é muito cedo ainda.
Entre espumeos lençois, raios de lua,
Frouxel de nuvens e hálitos de flores,
O seu gentil espírito flutua.
E, nos deslumbramentos e esplendores
Da infância, um turbilhão borboleteia
De prismáticos sonhos furta côres;
Sultiformes visões... tudo lhe ondeia
Na alma. Bem longe d'ella, ó Realidade,
Teu pavoroso pelago estrondeia!...
Tagarella e sorri.. Como não há de
Rir e tagarelar, se és tão risonha
O' primavera da primeira edade!
Da vida a rota é árida e enfadonha,
E emquanto a nós, a raiva nos abraza
E nos devora a cólera, — ela sonha!
Da tua filha, amigo, a débil aza
Nunca te falte; é teu broquel: — Luiza
É o anjo tutelar de tua casa.
Como é fraca, entretanto: quase a pisa,
Quasi a machuca o matutino e leve
Sopro de leve e matutina brisa;
A asa da abelha, o flóculo da neve,
A cousa enfim que a gente mais estime,
Por doce e frágil, por macia e breve;
A pérola, o alfenim, a haste do vime,
A filigrana mais custosa e rara…
Quanto ela é débil, nada disso exprime.
Nada !. Nem há constelação mais clara,
Nem iris mais benigno que a esperança,
Que os lábios seus de risos aljofára.
E o que é que do candor d'esta criança
Daria ideia e ideia o que daria
D'essa medrosa e angélica esquivança?
Lembra um pássaro quando principia
As asas a bater ; lembra uma corça
Branca e selvagem, tímida e bravía.
E fraca; mas não há quem se não torça,
Por mais forte, perante essa fraqueza:
Se essa fraqueza é toda a sua força!
Ante o perigo, às vezes a incerteza,
Mais que a incerteza mesmo: a inconsciência
E do indefeso a única defesa.
Vence-a a desgraça? não ; ela é que vence-a
E d'ella corre, e até nem corre: vôa,
Porque não faltam asas à inocência.
Orna-a dos risos a infantil coroa,
E fulge, mais do que uma de brilhantes,
Essa de risos, de que a edade ornou-a.
Do futuro vislumbra as faiscantes
Longes paisagens, mundos acendidos
Aos fogos de crepúsculos distantes.
A ilusão de lucíferos vestidos
Traja-a, rútila, em roda se lhe entorna,
Vela-lhe os olhos e enche-lhe os ouvidos.
Por isso o céo, que a tempestade adorna
De nimbus, e onde os vendavais estrugem,
Ante ella, todo em rosicler se torna;
O mar, em vagas que espumando rugem,
Sobre os parceis, onde estrebucha e brama,
Cospe a salgada e li vida babugem,
Porém, captivo, os seus corais em rama,
E todo o seu recôndito thesouro:
Pérolas e âmbar. a seus pés derrama;
Calmando os brados e afrouxando o choro,
Amaina o vento a perpassar os dedos
Dos seus cabellos pelas ondas de ouro;
E, frenéticos, pelos arvoredos
Soam trinos e beijos, em cardumes
Turturinos, puríssimos e ledos…
Vida ilusória! O coração resume
Tudo o que é casto e bello; e é como um frasco
De inalterado, oriental perfume;
N'ele jamais se aninha ódio, nem asco.
E tudo isso no nosso jaz, oculto
Como um sapo na brecha de um penhasco!
Em nós o orgulho augmenta e toma vulto,
N'ela a doçura toma vulto e augmenta:
A infância, amigo, nos merece um culto!
Tu, em batalhas vives, e a sangrenta
Luz de teu gládio os cenhos iracundos
Dos monstros que combates, afugenta;
Pela igualdade e o amor — esses dois mundos
Que amas, rugido tens contra a matilha
Dos hydrophobos déspotas imundos;
Não te vencem! . . No entanto, a tua filha,
Cujo alvo olhar no fundo de tua alma,
Como no fundo de um sacrario, brilha,
Doma-te, ó bravo! A pequenina palma
Da mão d'essa Dalila pequenina
Tolhe-te os pulsos e o furor te acalma.
Tua tempera é rija e adamantina;
Não te domina o audaz Cândido Rosa
E esta cândida rosa te domina :
Não faz, amigo, o que ela faz, nem gosa
Do que ela goza a cafila damninha!
Mansa leoazinha valerosa..
Vê como é forte a fraca Luizinha!
Março, 83.
CORREIA, Raimundo. “Luizinha”. In: Versos e Versões. Rio de Janeiro; Typ. e Lith Moreira & C., 1887, p. 193.
Na primavera
DESPERTOU ; e ei-la já, fresca e rosada,
No campo em flor, que se atavia e touca
Da primavera ao bafo, e onde é já pouca
A neve, ao sol fundida e descoalhada;
E em sua trêmula, infantil risada,
A boca abrindo, patenteia, a louca,
Bico -escrínio de pérolas da boca
Na pequenina concha nacarada;
Quebra as papoulas e despenca as rosas;
Passa entre os jasmineiros, que se agitam,
Às vezes célere e pausada às vezes;
E, sob as finas roupas ondulosas,
Seus leves pés, precipites, saltitam,
Pequenos, microscópicos, chineses...
Julho, 84.
CORREIA, Raimundo. “Na primavera”. In: Versos e Versões. Rio de Janeiro; Typ. e Lith Moreira & C., 1887, p. 33.
Noites de Inverno
ENQUANTO a chuva cai, grossa e torrencial,
Lá fora; e enquanto, oh bella!
A lufada glacial
Tamborila a bater nos vidros da janela;
Dentro, esse áureo torçal
Do cabelo, que, rico, em ondas se encapela,
Deslaça; e o alvor ideal
Do teu corpo à avidez do meu olhar revela;
Porque, a avidez do olhar
Do amante, é grato,ao menos.
Destas noites no longo e monótono curso,
— Claro como o luar —
Ver um busto de Vênus
Surgir nú d'entre as lans e d'entre as peles de urso.
Junho, 84.
CORREIA, Raimundo. “Noites de Inverno”. In: Versos e Versões. Rio de Janeiro; Typ. e Lith Moreira & C., 1887, p. 27.
Pesadelo
PENETRO a estância fúnebre e sombria,
Extremo leito da mulher amada;
E ergo a loisa, que a cobre — despojada
De toda a graça ideal, que a revestia:
Da belleza, onde um casto amor sorria,
Pudica e doce, nada resta, nada!
Nua de carnes, só a branca ossada,
Que apalpo e sinto fria, fria, fria...
E, o sono seu eterno interrompendo,
Clamo... Da noite o vento álgido corta,
Cai neve e é gélido o esplendor da lua...
Então, a erguer-se, pávida, tremendo
De frio e com pudor, me diz a morta:
Cobre-me! Há tanto frio e estou tão nua!
CORREIA, Raimundo. “Pesadelo”. In: Poesias. 4 ed. São Paulo; Unesp, 1898, p. 177.
Projeto de Pesquisa: Tradição e ruptura na poesia de senhor de engenho: imagens da mulher (FALE/ILC/UFPA)
Coordenadora: Profa. Dra. Angela Teodoro Grillo
Bolsista: Ana Lígia Rodrigues Drago (Universal/CNPq)