Augusto Frederico Schmidt (1906-1965)
Diante do mar
Guardo o teu perfil duro
Recortado na tarde veneziana.
Respiravas força e ódio.
Os teus cabelos em luta com o vento.
Palpitavas esplêndida.
Havia febre, desejo de ferir, anseio,
revolta
No teu ser.
Vivias a ambição de enfrentar tudo.
Do teu olhar metálico nascia fogo verde
Que se misturava com o ouro e rosa
Do crepúsculo.
Guardo a tua imagem, pura e nítida
De pé em frente ao mar,
Contemplando no céu o voo de um pássaro.
SCHMIDT, Augusto Frederico. “Diante do mar” In: Cadernos de Cultura, volume 98. MEC, RJ, 1956, p. 15.
Princesa Amarela
O metal de sua voz se aquece
Na tarde, fria lá fora, mas tépida
Pousada na sua pele, nos seus
Cabelos longos, nos seus pequenos pés.
Desce dos seus olhos um fio d'água
Que parece cantar, mas é silencioso e manso,
E atravessa indolente o seu rosto,
Como o braço ténue e fino de um rio,
Avança debruando uma paisagem triste.
Chama-se Ismênia e olha pelas vidraças o tempo
Que passa como a ave do outono nos céus
Garços, quase noturnos, onde palpitarão,
Frescas, em breve, as primeiras estrelas,
Que as mãos da aurora desfolharão.
SCHMIDT, Augusto Frederico. “Princesa Amarela” In: Cadernos de Cultura, volume 98. MEC, RJ, 1956, p. 14
A Perdição de Josefina
Eu vi o lírio debruçado sobre a escura terra.
Eu vi o lírio manchado e murcho.
Eu vi o lírio perdido para mim e perdido para os tempos!
E senti no coração as mágoas das grandes culpas.
Por que não salvamos Josefina, Senhor?
Por que deixamos a perdida filha da noite
Abandonada às míseras prisões cotidianas?
Por que não salvamos aquela que era a Graça e cantava?
Por que não a violentamos com o nosso ímpeto,
E por que a deixamos brincando na sua inconsciência?
Josefina, será a presa das coisas baças e melancólicas
No entanto, foi um sorriso, foi um instante de frescura
[e repouso,
Uma sombra de velhas árvores
Um inquieto regato.
Hoje está no triste caminho das renúncias
- — E foi o Sonho, e tinha as mãos frias e os pés pequenos
[e leves
Era uma Graça morena, era a presença do Amor. eia a
[rosa mal-nascida.
Um dia nos convidou para a fuga,
E sentimos que os ventos da noite falavam pela sua voz
[ inocente,
Sentíamos que era a própria fantasia que palpitava
Nos seus seios virginais!
Ah! perdida - Josefina!
Senhor! tudo isso não é mais;
Tudo isso está escondido, e mal podemos lembrar o que
[foi um dia
Hoje nós poderemos debruçar sobre a que foi Josefina!
Seu destino foi mais triste que o das flores que a tempes-
[tade sufocou.
Seu destino foi mais triste que o dos passarinhos mortos
[ainda implumes!
Josefina, Senhor, é a serva das coisas mais pobres e feias!
SCHMIDT, Augusto Frederico. “A perdição de Josefina” In: Cadernos de Cultura, volume 98. MEC, RJ, 1956, p. 42.
Lamentação sobre Josefina
Vamos, amigo, vamos, companheiro,
Vamos chorar a leve Josefina.
Vamos amigo meu, chora aquela
Que foi a ingénua nuvem branca
Em escuros céus!
Vamos, amigo, vamos lavá-la
Em nossas lágrimas!
Era branca, era pura, era alegre!
Um dia, sorriu-nos
Lembras-te? Era no inverno.
Ouvíamos os ventos que brigavam
Nas escuras florestas.
Sentíamos em nós os grandes esquecimentos.
Éramos seres abandonados da alegria!
Os nossos olhares não tinham mais o brilho dos que
[esperam.
Estávamos perdidos no tédio.
Trazíamos conosco o peso das nossas longas mocidades.
Foi então que Josefina surgiu!
Era a pequena flor, era a pequena alegria, era a vida que
[nos era de súbito restituída!
Ouvíamos o ,som da sua humilde música, da jovem
[música de Josefina!
Josefina não se lembra mais de si mesma!
Seu corpo é uma pobre casa perdida e escura.
Chorar Josefina é chorar sobre nós mesmos
E sentir a dura existência,
Inflexível aos nossos anseios e aos nossos sonhos!
SCHMIDT, Augusto Frederico. “Lamentação sobre Josefina” In: Cadernos de Cultura, volume 98. MEC, RJ, 1956, p. 38.
Projeto de Pesquisa: Tradição e ruptura na poesia de senhor de engenho: imagens da mulher (FALE/ILC/UFPA)
Coordenadora: Profa. Dra. Angela Teodoro Grillo
Bolsista: Ana Lígia Rodrigues Drago (Universal/CNPq)