Desfalecimento
Eu me entristeço
Recordando a infância
(C.d’Abreu)
Eu me recordo com ânsia,
Da doce passada infância,
Que a desventura levou!
Desconhecia o tormento,
Sorrindo aos beijos do vento,
Na florinha que murchou!
Quando me lembro que agora,
Daquela rosada aurora,
Só resta o verbo carpir!
Murmuro: fatais amores,
Se viestes com teus rigores,
Encher minh’alma de dores,
Deixa-me triste sentir!
Meu afeto de donzela,
Teceu virginia capela,
Nas fibras do coração,
Cujas rosas, sem meu canto,
Banharam-se com meu pranto,
Queimaram-se por encanto,
No fogo da ingratidão…
Meu Deus! se eu fora poetisa,
Ao ciciar d’ essa brisa,
Que ainda a pouco gemeu;
Ao som da lira mimosa,
Eu cantaria queixosa,
Uma lembrança saudosa
De Casimiro de Abreu…
Tenho saudades das aves,
Com seus gorjeios suaves,
Brincando em verde campina…
Com a infância tudo acabou-se,
E meu folguedo finou-se,
Como a estrela que ocultou-se,
Da bela Safo e Corinna…
Só dois lustros eu contava,
Quando de tarde escutava,
Das fontes o murmúrio,
Enebriada se a aragem,
Soluçava na ramagem,
Por entre a seca folhagem,
Resequida ao sol do estio…
O’musa dá-me uma harpa,
Embora em chorosa farpa,
Só tenha um grito agoureiro!...
Se me fores predileta,
Dá-me um gênio de poeta,
Que eu serei filha dileta,
Do Parnaso Brasileiro!...
Vaidade, orgulho, mentira,
Não escutam minha lira,
Que é despida de ambição;
Sendo por mim dedilhada,
E’ do nobre deslembrada,
Do opulento desprezada,
Nas trevas, na solidão!...
Que importa, glória, riqueza,
Quando sinto com pureza,
Meu coração palpitando,
Bradar sensível tão terno:
Eu gozo n’um sonho eterno,
Se for a crença do inferno,
Eu serei crente chorando.
D’ANDRADE, Maria do Carmo Sene. “Desfalecimento”. In: O canto do cisne. Rio de Janeiro, RJ: Typographo-editor, 1880, p. 18.