Cruz e Sousa (1861-1898)
Aos pobres
– Minha mãe, minha mãe, quanta grandeza
Nesses palácios, quanta majestade;
Como essa gente há de viver, como há de
Ser grande sempre na feliz riqueza.
Nem uma lágrima sequer – e à mesa
Dentre as baixelas, dentre a imensidade
Da prata e do ouro – a azul felicidade
Dos bons manjares de ótima surpresa.
Nem um instante os olhos rasos d’água,
Nem a ligeira oscilação da mágoa,
Na vida farta de prazer, sonora.
– Como o teu louco pensamento expandes!
Filho, a ventura não é só dos grandes;
O mar também é grande e quanto chora!
SOUSA, João da Cruz e. “Aos pobres”. In: Outros sonetos. In: Obra completa: poesia / João da Cruz e Sousa. Organização e estudo por Lauro Junkes. Jaguará do Sul: Avenida; 2008, vol. 1, p. 143.
Visão
Noiva de Satanás, Arte maldita,
Mago Fruto letal e proibido,
Sonâmbula do Além, do Indefinido
Das profundas paixões, Dor infinita.
Astro sombrio, luz amarga e aflita,
Das Ilusões tantálico gemido,
Virgem da Noite, do luar dorido,
Com toda a tua Dor oh! sê bendita!
Seja bendito esse clarão eterno
De sol, de sangue, de veneno e inferno,
De guerra e amor e ocasos de saudade…
Sejam benditas, imortalizadas
As almas castamente amortalhadas
Na tua estranha e branca Majestade!
SOUSA, João da Cruz e. “Visão”. In: Faróis. In: Obra completa: poesia / João da Cruz e Sousa. Organização e estudo por Lauro Junkes. Jaguará do Sul: Avenida; 2008, vol. 1, p. 469.
Projeto de Pesquisa: Tradição e ruptura na poesia de senhor de engenho: imagens da mulher (FALE/ILC/UFPA)
Coordenadora: Profa. Dra. Angela Teodoro Grillo
Bolsista: Ana Lígia Rodrigues Drago (Universal/CNPq)