Emília de Freitas (1855-1901)
Soluços
À Memória de minha mãe
Meu Deus, onde foi ella?
Por que não voltou mais?
– Morreu – murmura a noite.
– Morreu! Repete o dia.
Agora o que me resta?
Embora um fraco arrimo,
Na terra era somente
O bem que eu possuía.
Oh! mãe porque deixastes
Vagando, aqui sozinha,
A filha malfadada?
Ai! tu qu’eras tão boa,
Escuta a minha prece,
Do céo cobre de bênçãos
Os prantos de minh’alma
Que o mundo amaldiçoa.
Não foste afortunada,
Eu sei que na existência
Sofrestes muito, muito,
Mas eu mil vezes mais!
Nos últimos momentos
Cercada de carinhos
A vida te fugiu
Por entre os nossos ais!
E como a folha secca,
Que róla pelo sólo
Coberta de poeira
E da haste desprendida,
Assim minh’alma vaga
Nos páramos desertos,
Nos campos desolados
E tristes desta vida!
Si vêm aos meus ouvidos
O alegre som da festa,
Começo a divagar;
Que tédio! e que tormento!
Deveriam folgar longe
De mim que já não tenho
Nem mais quem me console,
No duro sofrimento.
Do reino da ventura,
Bem sei que sou proscrita,
Nem mais posso embalar-me,
Dos sonhos no remanço;
Mas Deus, porque me negas,
No resto de meus dias,
O mínimo favor...
D’um pouco de descanso?!
Cansada de estudar...
Exausta do trabalho...
Às vezes curvo a fronte
Em noites de agonia!
Lembrando-me dos meus,
Eu chamo por seus nomes...
O eco me responde:
– A casa está vazia.
- Embora já sem forças,
Levanta-te, abre o livro...
- Tens febre? Não importa.
É mister trabalhar.
- Bailando alli não ouves
A turba dos felizes
Que em meio dos prazeres
Nem podem enxergar?
- não vês que seu juízo
Cruel e desumano
Nem busca examinar
Si é justa essa amargura?
Sorrindo indifferente,
Te aponta a gloria inútil
E diz que os teus pesares
São mais do que loucura!
- Que vale esta centelha
De luz imorredoura
Que o povo chama gênio
Por vêl-a scentilhar
Não vive o que a possui
Gemendo nos horrores
Da noite da desdita...
As vezes te sem lar?
- O! pobre infortunada!
A campa te convida,
Achastes um abrigo...
Aperta a mão da morte!
Só ella póde dar-te
A paz que tu desejas,
Quebrando estes grilhões
Pregados pela sorte
- Não tardes no caminho
Que é longo e espinhoso,
A sombra do cipreste
Tu podes descansar...
A fronte incandescente
Tu lá terás banhada
De gotas de sereno
Em noites de luar.
Levanto a vista e busco.
Ao longe o cemitério
Por trás dos mausoléus
Parece que se some
Um vulto... é ela...
Eu vejo, a minha boa mãe
Que ainda pronúncia
As letras de meu nome.
Então rompo em – soluços,
Tal como Antonietta
Na hora em que subiu
Os degraus da – guilhotina,
“Um só signal de affecto
“Por ver que recebia
“Das mãos d’uma creança
“Esmola pequenina.
Fortaleza – 1885.
FREITAS, Emília de. “Soluços”. In: Canções do lar, p. 234-240, 1891.
Projeto de Pesquisa: Tradição e ruptura na poesia de senhor de engenho: imagens da mulher (FALE/ILC/UFPA)
Coordenadora: Profa. Dra. Angela Teodoro Grillo
Bolsista: Ana Lígia Rodrigues Drago (Universal/CNPq)