Emília de Freitas (1855-1901)
A mãe escrava
Numa tarde em que o sol brilhava esplêndido
No céo bello e azul do meu paiz,
Chegou pobre escrava onde eu me achava
E prostrada a meus pés, eis que me diz:
“Sinhazinha, sou livre ... meu senhor
Me deu minha carta ... sim, agora...
– se assim é, perguntei, o que lhe aflige,
Porque treme a falar, porque é que chora?!
Humilde como era ergueu a vista;
Seu olhar era triste que doía!
Feria a consciência de quem quer
Que pudesse afrontar tanta agonia!
“Roubaram meus filhos... estão a bordo...
Hoje mesmo o vapor levanta o ferro
Levando o meu Vicente... a minha Lúcia
Eis porque hoje aqui chorando erro.
“Sinhazinha por Deus antes queria
Como outr’ora cativa e maltratada
Tê-los juntos de mim, pois ora sinto
Que era assim muito menos desgraçada.
“Estou velha e cansada, já não posso
Suportar este golpe, a crueldade!
Vou morrer de pesar ... eu por tal preço
Não queria esta inútil liberdade...
E a triste chorando s’estorcia
Com a face no pó do pavimento!
Era a dor d’uma mãe. Quem não respeita
Esta flor imortal do sentimento?!
Mas daquela infeliz tantos soluços
Não tocou n’este mundo a mais ninguém,
Ah! Só eu partilhei de sua dor...
E por vê-la chorar, chorei também.
Desde então quando via numa praça
Os escravos marchando para o mercado,
Minh’alma sentia em desespero
E soltava de horror meu triste brado.
FREITAS, Emília de. “A mãe escrava”. In: Canções do lar, p. 17-18, 1891.
III Quadro
Minha mãe (Maria de Jesus Freitas)
Me lembro inda de vê-la em dias mais felizes
A casa governando em calma actividade
Brilhava no labor uns restos de belleza
E graças que ficaram de sua mocidade.
No rosto ela mostrava a paz da retidão,
A voz tinha dôce!... O riso era sem par!
Nas trevas encantadas dos dias infantis
Os filhos caminhavam à luz de seu olhar.
A noite ela embalava ao colo o mais pequeno,
Nós outros rodiavamos a rede, onde ela estava,
Cantando uma canção, tão terna, tão saudosa
Que além de comover também me impressionava.
Primeiro do que o sol, erguia-se bem cedo,
Quer fosse no verão, quer fosse em frio inverno,
As plantas não perdiam um til de seus cuidados;
Viviam como nós também de amor materno.
Eu via o seu cabelo tão longo e abundante
Ao sopro da manhã voando como um véu,
Enquanto ela vagava alegre pela horta,
Assim como uma estrela reluz em nosso céu.
Queria tomar parte conosco nos brinquedos;
Havia no seu trato, clemência e mansidão;
Mas sempre em todo tempo sem zanga e sem rigor
Que zelo! e que cuidado em nossa educação!
E os pobres infelizes achavam, no seu seio,
Abrigo confortável, remédio a sua dor;
Pois dando o que podia também dava conselhos,
Moral, que, repartia, tão franco, o seu amor.
Não tinha uma intriguinha: sua alma complacente
Chamava a sympathia de toda vizinhança:
Seu nome repetido, talvez de bocca em bocca
Corria como um echo a léguas de distância.
Depois pelos desgostos na triste viuvez
Perdeu a actividade assim como alegria,
Vivia tão nervosa... tão cheia de cuidados
Que a horta da mudança também se ressentia.
Deixou todas as plantas em grande esquecimento
Nem mais uma florinha viveu em seus canteiros;
Um livro sempre aberto... só lendo distraia...
Já nada lhe importava nos anos derradeiros.
E eu que possuí-la, julgava toda vida,
Achando ser incrível seus dias terem fim,
Sabia que a moléstia marchava com presteza
Mas, não podia crer em todos nem em mim.
Só Deus calcula e pesa as noites que uma filha
Velando à cabeceira da mãe prestes á morte,
Recebe o seu olhar saudoso e penetrante.
Buscando não chorar mostrando uma alma forte.
Senti o coração partir-me no meu peito!
No dia em que perdida a última esperança,
Tirou o seu anel, sentou-se ainda no leito
E deu-me sem falar a última lembrança!
Meu Deus! quando eu a vi no leito mortuário
Cadaver já sem vida... gelada sem poder
Ao menos escutar o pranto que eu vertia
Na hora mais acerba que teve o meu sofrer!
Fiquei como suspensa! gelada de terror!
N Aquella mágoa extrema! Naquela dor intensa!
Sabendo que ficava no mundo tão vazio...
Olhei a vida e tudo com parva indiferença.
A custa dos pesares meus olhos se secaram,
Meus dias se tornaram um longo anoitecer!
Já nada aqui me prende, eu vago entre os felizes
Cansada de chorar, cansada de viver.
FREITAS, Emília de. “III quadro”. In: Canções do lar, p. 60-62, 1891.
Soluços
À Memória de minha mãe
Meu Deus, onde foi ella?
Por que não voltou mais?
– Morreu – murmura a noite.
– Morreu! Repete o dia.
Agora o que me resta?
Embora um fraco arrimo,
Na terra era somente
O bem que eu possuía.
Oh! mãe porque deixastes
Vagando, aqui sozinha,
A filha malfadada?
Ai! tu qu’eras tão boa,
Escuta a minha prece,
Do céo cobre de bênçãos
Os prantos de minh’alma
Que o mundo amaldiçoa.
Não foste afortunada,
Eu sei que na existência
Sofrestes muito, muito,
Mas eu mil vezes mais!
Nos últimos momentos
Cercada de carinhos
A vida te fugiu
Por entre os nossos ais!
E como a folha secca,
Que róla pelo sólo
Coberta de poeira
E da haste desprendida,
Assim minh’alma vaga
Nos páramos desertos,
Nos campos desolados
E tristes desta vida!
Si vêm aos meus ouvidos
O alegre som da festa,
Começo a divagar;
Que tédio! e que tormento!
Deveriam folgar longe
De mim que já não tenho
Nem mais quem me console,
No duro sofrimento.
Do reino da ventura,
Bem sei que sou proscrita,
Nem mais posso embalar-me,
Dos sonhos no remanso;
Mas Deus, porque me negas,
No resto de meus dias,
O mínimo favor...
D’um pouco de descanso?!
Cansada de estudar...
Exausta do trabalho...
Às vezes curvo a fronte
Em noites de agonia!
Lembrando-me dos meus,
Eu chamo por seus nomes...
O eco me responde:
– A casa está vazia.
- Embora já sem forças,
Levanta-te, abre o livro...
- Tens febre? Não importa.
É mister trabalhar.
- Bailando alli não ouves
A turba dos felizes
Que em meio dos prazeres
Nem podem t’enchergar?
- não vês que seu juízo
Cruel e desumano
Nem busca examinar
Se é justa essa amargura?
Sorrindo indifferente,
Te aponta a glória inútil
E diz que os teus pesares
São mais do que loucura!
- Que vale esta centelha
De luz imorredoura
Que o povo chama gênio
Por vêl-a scentilhar
Não vive o que a possui
Gemendo nos horrores
Da noite da desdita...
As vezes te sem lar?
- O! pobre infortunada!
A campa te convida,
Achastes um abrigo...
Aperta a mão da morte!
Só ela pode dar-te
A paz que tu desejas,
Quebrando estes grilhões
Pregados pela sorte
- Não tardes no caminho
Que é longo e espinhoso,
A sombra do cipreste
Tu podes descansar...
A fronte incandescente
Tu lá terás banhada
De gotas de sereno
Em noites de luar.
Levanto a vista e busco.
Ao longe o cemitério
Por trás dos mausoléus
Parece que se some
Um vulto... é ela...
Eu vejo, a minha boa mãe
Que ainda pronúncia
As letras de meu nome.
Então rompo em – soluços,
Tal como Antonietta
Na hora em que subiu
Os degraus da – guilhotina,
“Um só signal de affecto
“Por ver que recebia
“Das mãos d’uma creança
“Esmola pequenina.
Fortaleza – 1885.
FREITAS, Emília de. “Soluços”. In: Canções do lar, p. 234-240, 1891.
Um quadro
À Memória de meus irmãos João Batista de Freitas, Cícero Cicinato de Freitas, Carlos Augusto de Freitas e Antônio de Freitas.
Parca cruel quebras ferina
Já quarto fio do fraterno laço
E cada golpe não é um abutre
Que de meu coração leva um pedaço!
I
Nasci na opulência, um pai eterno
Que benigno o céu me concedeu,
Político voltou-se à causa pública,
Em martírio por ela, ele morreu
E somente nos legou pobreza e honra,
Pois nunca se manchou o nome seu;
Mas, de tantos amigos que tivera
Em prantos nem um nos conheceu!
Nem um lamentou triste viúva
Com doze filhos no hospício da orfandade,
Deixaram os míseros aos cuidados
Da benévola e santa caridade.
Mas, não, os heróis inda crianças
Venciam a cruel necessidade,
Quando Deus foi chamando um após outros
Pra os prêmios que guardou na eternidade.
II
Batista, tão moço e talentoso
Nos seus devaneios de poeta
Esquecendo da vida o curto espaço,
Chegou do desespero a fatal meta!
E quebrou-se da lira as cordas d’ouro,
Saudosa gemeu musa dileta
Porque a morte que há tanto era evocada
Cravou-lhe no peito a dura seta
Bem longe da pátria! Entre os estranhos
Desligando as idéias que ainda ligo
No delírio da febre ele expirou
E distante de nós teve um jazigo.
III
Cícero, depois, com a mesma idade,
Fora do lar, do teto amigo
De mãe e de irmãos sem os desvelos
Morreu a gemer a sós consigo!...
IV
Carlos viveu qual misantropo,
Bem longe da venal sociedade,
Mas, em seu limitado ceticismo
Cria ainda da família na amizade,
Era nela que o mundo se encerrava
Pra sua alma tão cheia de bondade...
Também foi chamado e nos deixou
No desterro em penosa soledade,
Mas, ficava entre nós um ser sublime!
Incansável lidador, filho exemplar
Que a vida consagrava ao bem possível
Que na terra podia praticar!
Pois se a todos que no erro se obstinam
Sabia mansamente aconselhar,
Não tinha um pensamento, um só desejo,
Que não fosse a Deus e os homens muito amar.
V
Quantas vezes o chamei anjo da paz
Quando triste e mergulhada na aflição
Ele vinha trazer-me entre sorrisos
Alguma divinal consolação,
Hoje que entre nós não vive mais
É que sinto todo horror da solidão!
É que prezo amizade inexaurível
Que achar só podia em meu irmão!
Quando ao céu estrelado elevo a vista
Meu olhar penetrante e dilatado
O seu semblante tão calmo e tão risonho
Busca ainda entre as nuvens ver traçado
Porque creio que Antônio foi na terra
Um eleito do Senhor, um enviado
Que à pátria celeste voltou como
O guerreiro triunfante e laureado.
Agora o que fazer da pobre mãe
Com três filhas no vigor da mocidade?
Responda-me, por Deus, quem não foi fera,
Quem julgar pertencer a humanidade.
Porque temo em pensar que o infortúnio
É caminho que leva a impiedade!
Ai! Não deixem que venha um... suicídio!
Ofuscar da virtude a claridade.
FREITAS, Emília de. “Um quadro”. In: Canções do lar, p. 17-18, 1891.
Projeto de Pesquisa: Tradição e ruptura na poesia de senhor de engenho: imagens da mulher (FALE/ILC/UFPA)
Coordenadora: Profa. Dra. Angela Teodoro Grillo
Bolsista: Ana Lígia Rodrigues Drago (Universal/CNPq)