Bruno de Menezes (1893-1963)
Anto Nobre
Está por pouco tempo, assim o creio,
a poente outonal fim de meu fado.
E ai, coração! como suppuras, cheio,
na tumba de meu peito, embalsamado.
E' assim a vida, mãe! Quanto peccado
teu filho deve ter dentro do seio…
E meus olhos, Senhor, meu ser, cansado,
tudo me diz que estou do outono em meio…
Chegando os passaportes, combalido,
sigo ao porto final, á fria clausura.
para expiação da culpa em que hei vivido.
Da culpa, do peccado esmagador,
de ser na vida, em tragica amargura,
tristonho Hamleto, em provações de dor.
MENEZES, Bruno de. “Anto Nobre”. In: Obras Completas de Bruno de Menezes. Belém - Pará: Secretaria de Estado da Cultura, v.1, 1993, p. 147.
Crucificado!
Abriste os braços-Cruz humana --
no Calvarie do meu ser.
Paixão de um Deus.-- uma semana!
Crucificado eu vim morrer…
Jogam até a minha túnica,
que me despiram sem pudor.
Dão-me essa cruz a glória única
que possuirei seja onde for
Meu corpo exangue alanceado
com cinco chagas, vai ter fim
Cessa, Magdala, o choro histérico
quem prega Ideias, morre assim.
Si, como Rei, não tive um trono,
trouxe um ideal às multidões
Quando eu dormir o último sono
compreender-me-hão os corações.
Dizem “Três horas de agonia”
quando eu nasci a agonizar.
Si todas mães fossem “Maria”
a minha estava no altar.
Eu não sei quantas “sexta feiras”
teve, e ha de ter, esta paixão.
Há anos, tristezas carpideiras
levam meu corpo em procissão
Mas si eu morri! – não é preciso
Um crucifixo as mãos em cruz:
Dizem, num som, claro preciso
que eu sou Cristo, e tu és a Cruz.
MENEZES, Bruno de. “Crucificado”. In: Obras Completas de Bruno de Menezes. Belém - Pará: Secretaria de Estado da Cultura, v.1, 1993, p. 56.
Divino Sudario
Minha mãe, as mulheres, os plebeus,
não sabem quantas "sete quedas", eu
venho caindo dês que os olhos teus
são para mim querido pharyseu.
Só o mundo espiritual, sabe que o meu
julgamento é delicia para um Deus...
Golgotha, sê mais longe! Cyrineu,
deixa, que é minha a Cruz; - volta aos judeus!
Si venho suando sangue e sinto espinhos
coroando-me –Verônica não passes
em meu rosto o sudario– há outros carinhos…
Deixa que minha mãe abra o seu peito
e, sobre o Coração, cheia de graça,
grave a cabeça de seu Filho eleito.
Missão Bendicta
A missão da mulher sobre a terra é ser bôa.
prender os corações, catequizar as Almas.
Dentro da humana fé tudo olvida e perdoa
este Anjo tutelar, de asas no azul espalmas.
Por um filho, si é mãe, quantas noites incalmas!
Se a noiva aurora e fiel, como esposa abençoa!
A Caridade e o Bem não passam sem ter palmas
junto a um ser feminil que nunca amaldiçoa.
Para nos compensar das misérias do mundo
o Supremo Creador deu-nos Eva e Maria.
como Idealismo e Crença ao nosso mal profundo.
Sem a mulher, este Orbe inda era o caos – sem luz
Ella, que á Alma de Adão trouxe o Sonho e a Poesia
sete dores sofreu por Amor de Jesus!
MENEZES, Bruno de. “Missão Bendicta”. In: Obras Completas de Bruno de Menezes. Belém - Pará: Secretaria de Estado da Cultura, v.1, 1993, p. 34.
Mãe Preta
No acalanto africano de tuas cantigas,
nos suspiros gementes das guitarras,
veiu o doce langor
de nossa voz,
a quentura carinhosa de nosso sangue.
És Mãe Preta uma velha reminiscência
das cubatas, das senzalas,
com ventres fecundos padreando escravos.
Mãe do Brasil Mãe dos nossos brancos?
És, Mãe Preta, um céu noturno sem lua.
mas todo chicoteado de estrelas.
Teu leite que desenhou o Cruzeiro,
escorreu num jato grosso,
formando a estrada de São Tiago…
Tú, que nas Gerais desforraste o servilismo.
tatuando-te com pedras preciosas
que deste festas de esmagar!
Tú, que criaste os filhos dos Senhores,
embalaste os que eram da Marqueza de Santos,
os bastardos do Primeiro Imperador
e até futuros Inconfidentes!
Quem mais teu leite amamentou, Mãe Preta?...
Luiz Gama? Patrocínio? Marcilio Dias?
A tua seiva maravilhosa
sempre transfundiu o ardor cívico, o talento vivo,
o arrojo máximo!
Dos teus seios, Mãe Preta, teria brotado o luar?
Foste tú que na Bahia alimentaste o gênio poético
de Castro Alvez? No Maranhão a glória de Gonçalves Dias?
Terías ungido a dor de Cruz e Souza?
Foste e ainda és tudo no Brasil, Mãe Preta!
Gostosa, contando a história do Saci,
ninando murucú-tú-tú
para os teus bisnetos de hoje…
Continuas a ser a mesma virgem de Loanda,
cantando e sapateando no batuque,
correndo o frasco na macumba,
quando chega Ogum, no seu cavalo de vento,
varando pelos quilombos.
Quanto Sinhô e Sinhá-Moça
chupou teu sangue, Mãe Preta?!...
Agora, como ontem, és a festeira do Divino,
A Maria Tereza dos quitutes com pimenta e com dendê.
És, finalmente, a procreadora côr da noite,
que desde o nascimento do Brasil
te fizeste “Mãe de Leite”...
Abençoa-nos, pois, aqueles que não se envergonham de Ti.
que sugamos com avidez teus seios fartos
-bebendo a vida!-
que nos honramos com o teu amor!
TUA BENÇÃO, MÃE PRETA!
MENEZES, Bruno de. “Mãe Preta”. In: Batuque. In: Obras Completas de Bruno de Menezes. Belém - Pará: Secretaria de Estado da Cultura, v.1, 1993, p. 114.
Projeto de Pesquisa: Tradição e ruptura na poesia de senhor de engenho: imagens da mulher (FALE/ILC/UFPA)
Coordenadora: Profa. Dra. Angela Teodoro Grillo
Colaboração: Literatura e sociedade: releitura de vozes plurais (Projeto Universal/CNPQ)
Bolsista: Ana Lígia Rodrigues Drago (Bolsa CNPQ/Universal)