Mil Marias: Grupo de Pesquisa de Imagens da Mulher na Poesia de Língua Portuguesa (FALE/ ILC/ UFPA/ CNPq)                         

 

Bruno de Menezes (1893-1963)


Marca d'água

A dança da sombra

 


Rompendo a azul, lirial carcerária,
surges da sombra,
Flor de pérola…

Tremúlas, pairas, circumgiras,
revôas, viva, em verde alfombra,
phalena irial, traçando espiras.

Fumo em volutas, lenta e leve,
zigue-zagueias
Flor de neve…

Fluctuas, sobes, vens e vais,
como em cirandas as sereias,
malabaristicos punhaes…

Talhe de Lys, lyrico e longo,
és serpe azul,
ritual, do Congo…

Elfo em farandulas fugazes,
com os braços nus, sol de Istambul.
evocas viboras vorazes.

Ondúlas tragica, lasciva,
os seios hirtos,
loura... esquiva.

Silhueta esguia, apunhalante,
ciprestes, alamos e myrtos,
finges aos ventos... oscillante.

Ancas de linhas angulosas,
causas nevroses
venenosas.

Fremindo em voos, estranha, ophidica,
plasmas colleios-sinuoses,
torcicolando em nuvem fluídica.

Gestos elasticos, felina,
lembras pelliças
e morphina…

Formas de sylphides volateis,
na ansta das ondas quebradiças,
dão-te aos quadris... curvas vibrateis.

Tens as insanias das Origens,
chlorophormisas,
das vertigens…

Visão de bruma! és vã, etherea,
foges de mim, te evaporisas,
dás-me as steppes da Sibéria…

E's Flôr da sombra! Em vão larvejas
nos gobelins
côr de cerejas!...

Não posso ver-te! és moscovita,
bailas desnuda, vais e vens,
na dansa irreal da Sombra aflita...


MENEZES, Bruno de. “A dança do sono”.In: Reza dos sinos In: Obras Completas de Bruno de Menezes. Belém - Pará: Secretaria de Estado da Cultura, v.1, 1993, p. 132.

 


Marca d'água

Crescente de agosto

 


Branca, os gestos coleantes,
a pele macerada de aromas lubricos,
narcosantes,
feres as cordas aos violões noctambulos
dentro do noite enluarada.

Quantos amantes de ballada
e romanceiros,
empoeirados de estrellas,
velam teu corpo sob aéreos jasmineiros
desses jardins florentes que ha nos céos...

Radiosa Flor do Azul!
alvo corpo, sem véus,
-nesses meses do luar
e vindimas do céus
tens frutos de ouro de um pomar azul…

A linha e o ritmo de tua plástica
a música de teus gestos, a bailar,
dão a impressão da bailarina elástica
do sonho de um pintor impresssionista.

E's toda nervos e attitudes de felinos.
Serpenteiam nos teus ophidicos meneios
as curvas bruscas de um contorcionista.

... E hão de brilhar no céo de todos os destinos
as duas pontas finas de teus seios!


MENEZES, Bruno de. “Crescente de agosto”.In: Reza dos sinos In: Obras Completas de Bruno de Menezes. Belém - Pará: Secretaria de Estado da Cultura, v.1, 1993, p. 139.

 


Marca d'água

Mãe Preta

 


No acalanto africano de tuas cantigas,
nos suspiros gementes das guitarras,
veiu o doce langor
de nossa voz,
a quentura carinhosa de nosso sangue.

És Mãe Preta uma velha reminiscência
das cubatas, das senzalas,
com ventres fecundos padreando escravos.

Mãe do Brasil Mãe dos nossos brancos?

És, Mãe Preta, um céu noturno sem lua.
mas todo chicoteado de estrelas.
Teu leite que desenhou o Cruzeiro,
escorreu num jato grosso,
formando a estrada de São Tiago…

Tú, que nas Gerais desforraste o servilismo.
tatuando-te com pedras preciosas
que deste festas de esmagar!
Tú, que criaste os filhos dos Senhores,
embalaste os que eram da Marqueza de Santos,
os bastardos do Primeiro Imperador
e até futuros Inconfidentes!

Quem mais teu leite amamentou, Mãe Preta?...

Luiz Gama? Patrocínio? Marcilio Dias?
A tua seiva maravilhosa
sempre transfundiu o ardor cívico, o talento vivo,
o arrojo máximo!

Dos teus seios, Mãe Preta, teria brotado o luar?
Foste tú que na Bahia alimentaste o gênio poético
de Castro Alvez? No Maranhão a glória de Gonçalves Dias?
Terías ungido a dor de Cruz e Souza?

Foste e ainda és tudo no Brasil, Mãe Preta!

Gostosa, contando a história do Saci,
ninando murucú-tú-tú
para os teus bisnetos de hoje…

Continuas a ser a mesma virgem de Loanda,
cantando e sapateando no batuque,
correndo o frasco na macumba,
quando chega Ogum, no seu cavalo de vento,
varando pelos quilombos.

Quanto Sinhô e Sinhá-Moça
chupou teu sangue, Mãe Preta?!...

Agora, como ontem, és a festeira do Divino,
A Maria Tereza dos quitutes com pimenta e com dendê.
És, finalmente, a procreadora côr da noite,
que desde o nascimento do Brasil
te fizeste “Mãe de Leite”...

Abençoa-nos, pois, aqueles que não se envergonham de Ti.
que sugamos com avidez teus seios fartos
-bebendo a vida!-
que nos honramos com o teu amor!

TUA BENÇÃO, MÃE PRETA!


MENEZES, Bruno de. “Mãe Preta”. In: Batuque. In: Obras Completas de Bruno de Menezes. Belém - Pará: Secretaria de Estado da Cultura, v.1, 1993, p. 114.

 


Marca d'água

Visão aérea…

 


Loura e magra.
Um tanto
de felina, outro tanto
de ophidia.
Um perfil de estatueta de Tanagra,
como dizem os poetas.
eu achei-a fluídica,
imponderável, quase etérea.
Talvez, para os estetas,
fosse a Visão aérea…

De onde vinha? Não sei.
O caso é que sorria, andava em passos leves,
com um chapéu de «organdy»
talhado em rosa branca.
De onde vinha? Não sei.
Eu apenas a olhei
uns três minutos breves.

Se bem que o seu chapéu fosse uma rosa branca,
o vestido com que a vi,
chic, em verdade,
dava-lhe um ar de bebê
que inda vestisse bibe…

E ela que vinha a pé,
—vitrina humana que o rigor da moda exhibe —
com o vestido que a vi,
julguei que ela ficava
dependurada contra leis da gravidade…

Fechei os olhos… Loura e magra, ela passava…

MENEZES, Bruno de. “Visão aérea…”. In: Bailado Lunar. In: Obras Completas de Bruno de Menezes. Belém - Pará: Secretaria de Estado da Cultura, v.1, 1993, p. 84.

 


Marca d'água

I

 

O meu drama de amor é um mistério na vida,
um segredo em minha alma occulto enquanto
eu viva.
Amor que é quase um crime, ânsia louca e furtiva,
de esconder, dela própria, esta paixão proibida.

E padeço este mal, ai de mim!... Compassiva,
que ela nunca adivinhe a dor desta ferida.
Se a seu lado estou só, falo em voz comovida,
sem ouvir, nem dizer, uma frase expressiva.

E Deus, que a fez formosa assim, quiz que a encontrasse.
Cumprindo o seu dever, vejo-a passar, fugace,
surda aos ais de meu canto e alheia á minha dor.

Não me entende, de certo... E há de dizer, com enlevo,
ao ler, -tão cheios della! -estes versos que. escrevo:
Feliz desta mulher que inspira tanto amor!


MENEZES, Bruno de. “I”. In: Os sonetos D’Arvers.. In: Obras Completas de Bruno de Menezes. Belém - Pará: Secretaria de Estado da Cultura, v.1, 1993, p. 83.

 

Projeto de Pesquisa: Tradição e ruptura na poesia de senhor de engenho: imagens da mulher (FALE/ILC/UFPA)
Coordenadora: Profa. Dra. Angela Teodoro Grillo
Colaboração: Literatura e sociedade: releitura de vozes plurais (Projeto Universal/CNPQ)
Bolsista: Ana Lígia Rodrigues Drago (Bolsa CNPQ/Universal)