Inês Sabino (1853-1911)
A Carmita
À minha cunhada Isabel Sabino Pinho
Pequeno cherubim lá do empyreo,
Si tu por um momento aqui pousaste
Chorando, a teus irmãos no céu deixaste,
Desceste a vir provar agro martyrio.
Achaste um conchegar, oh louro anjinho!
No materno regaço, o verdadeiro
Arrimo natural, e feiticeiro
Ninho tecido em plumas de carinho.
Depois, olhando calma, o céu fitaste,
Saudade tu sentistes langorosa.
Em paz adormeceste, e lá pousaste.
Creio ouvir-te cantar em voz mimosa.
Bem junto do altar, aos pés do Eterno,
Sorrindo a tua mãe, que está saudosa
SABINO, Inês. “A Carmita”. In: Impressões: Versos. Pernambuco: Typographia Apollo, 1887, p. 122.
A morte da virgem
À Memória de uma amiga
Foi ao romper da aurora! a alcova é pequenina,
De branco está forrada, e vê-se o bem-estar;
Um leito de alva roupa occulta a moribunda,
Um Cristo de marfim derrama tenro olhar.
Bem junto à cabeceira, a estátua de Maria
Yellando, como mãe, sorri no meditar;
A roda tristemente via-se a família
Aquellas frias mãos, em prantos, afagar.
Nas rendas da almofada, o rosto alabastrino
Estava tão tranquilo e pálido a sorrir! ...
Nos ares de ventura, eterna, doce, infinda,
Que goza quem é chão, no plácido dormir.
O meigo olhar sin -elo o fita já turvado,
Cruzando as alvas mãos, ao peito as conchegou;
De vez em quando eleva os olhos para a imagem,
Um longo e terno ai os lábios lhe agitou
Pediu uma tesoura e corta os fios de ouro,
Os distribue sem pena e sem soltar um ai!
Com frios lábios beija a mãe, que tanto amara,
E a pallida cabeça sobre o leito cai!
Morrer!... e o que é a morte ?—apenas mago sonho.
Do qual na eternidade vamos despertar;
Deixar-se para sempre um mundo injurioso,
Nos deve ser um bem, um quêdo repousar.
Morrer é redimir-se, o captiveiro finda,
O invólucro se quebra, o êxtase o irradia.
Findando a missão nobre, que a tivera presa,
Se curva à lei que a rege e ebria se extasia.
Morrer quando se é anjo?! oh! que ventura imensa!
Que dulciantes risos nos prepara os céus!
Desprende-se a matéria... o que importa á lama,
Se lá, na eternidade, tudo falia em Deus?!
SABINO, Inês. “A morte da virgem”. In: Impressões: Versos. Pernambuco: Typographia Apollo, 1887, p. 80
O natal do pobre
É fétida a mansarda, nua, sem abrigo,
Apenas dois caixões, com uma esteira, além!
Um triste candieiro frouxa luz derrama,
Clareia tenuemente a quem entrando vem!
E” pobre este quartinho... ai quanta dor concentra!
São dois os vultos que entram, conheci-os eu!
Sentara-se o primeiro sobre a nua esteira,
Prostrara-se o segundo ante o regaço seu!
Dos dous, um rapazito, doze annos conta;
A fronte é espaçosa e o semblante, chão;
Já tem grosseira a pele, tem cabelo inculto,
Os pés estão descalços, tem calosa a mão!
“ Oh mãe! que fome eu sinto, ai que ela atroz me mata
Nós somos os preceitos desta vida ruim.
Andei, o dia inteiro em busca de trabalho,
Sem forças, quase morto, estás me vendo assim,”
A mãe pedira esmola, e, nesse dia santo,
Se quer um pão comum, lhe deram p’ra comer
E ela, a pobrezinha, fraquejante andara,
Voltando ao pobre lar, sentia-se morrer.
Cederá à fome exausta! ai quanto é triste o quadro
Do pobre sem natal, do triste sem irmão!
Qu’interminas torturas vê-se nestes rostos,
De Ruth, sem Booz; Moysés, sem promissão!
O pobre não tem pátria, é patria qualquer ninho...
Moysés, é todo aquelle que buscando está
Descanso num abrigo prometido e certo,
Que dê a paz e a vida, e arrimo, aqui, e lá.
SABINO, Inês. “O natal do pobre”. In: Impressões: Versos. Pernambuco: Typographia Apollo, 1887, p. 59.
Perdão
Perdão! palavra santa e abençoada
Dos lábios de Jesus, doce, emanada
Até mesmo na cruz!
Ee, o mártir da fé, do amor, do sangue.
Pronunciou-a quasi morto, exangue,
Como um raio de luz!
Perdão, é um conforto nesta vida,
O perdão, ergue uma alma já abatida
Sentindo-se morrer!
Perdão, é o doce néctar que vehemente
Vem ungir nosso peito docemente
E fazê-lo erguer!
—“Perdão”—, disse Jesus a Magdalena
“—Levanta-te mulher, tu és pequena,
Mas, poderoso eu sou
Perdoo-te sorrindo os teus pecados
Pelos ais, que tu soltas tão magoados.
Sim!.. perdoar-te eu vou !—”
Perdão! diz ao pai o filho ingrato,
Que ainda está magoado do maltrato
Que dele recebeu!
O coração de um pai, é um santuário,
Que oculta o seu perdão; qual relicário,
Que é do filho seu!
Perdão! diz a criança soluçando,
Perdão, diz inda o anjinho se abraçando
A’ mãe suave e boa!
Ela, fingindo austera a fronte linda
Sorri... e como mãe, o afaga ainda,
A lhe abraçar, perdoa!
Perdão! murmura o náufrago já morto
Sem lhe restar sequer um só conforto,
Santelmo, ou uma luz!
Abraçando-se à vaga triste e nua.
Morrendo-lhe a esperança fria e crua,
Entrega-se a Jesus!
“—Perdão! diz expirando o moribundo,
Meu Deus ! eu vou deixar enfim o mundo.
Me perdoareis. Senhor?”—
Ele, o Deus, flexível, todo afeto.
Perdoa, e o moribundo calmo e quieto
Não sente mais a dor!
E a orquestra universal em voz dorida
Se escuta a cada passo nesta vida
Em casta vibração!
O homem, arrefece a sua ideia.
Mesquinho, ao tôpo azul eis que se alteia
A murmurar;—Perdão!
SABINO, Inês. “Perdão”. In: Impressões: Versos. Pernambuco: Typographia Apollo, 1887, p. 37.
Projeto de Pesquisa: Tradição e ruptura na poesia de senhor de engenho: imagens da mulher (FALE/ILC/UFPA)
Coordenadora: Profa. Dra. Angela Teodoro Grillo
Bolsista: Ana Lígia Rodrigues Drago (Universal/CNPq)