Raimundo Correa (1859-1911)
Fantina
QUANTO ao peito maternal unida
Tens do infante a boquinha côr de rosa,
Que — inexorável, sôfrega ventosa —
Te suga o leite, o sangue:, a força, a vida;
Não é, mulher inválida e abatida.
Mais que a tua a alegria generosa,
Que o pelicano junto à prole gosa,
Quando da própria carne a vê nutrida.
Ao filho, ó mãe, que no lençol dourado
Envolto dorme, tácito e tranquillo,
Desse loiro cabelo desmanchado.
— Manche-te a infâmia, embora, o sacro asylo —
Do virginal pudor esfarrapado
Inda um farrapo tens para cobril-o!
CORREIA, Raimundo. “Fantina”. In: Poesias. 4 ed. São Paulo; Unesp, 1898, p. 123.
Mãe e Filho
(V.Hugo)
Mãe ! A teu filho muita vez disseste
Que o céo tem anjos, e ha
Só alegrias no viver celeste,
E é melhor viver lá ;
Que c um zimborio de pilastras bellas
Tenda de ricas cores ;
Jardim de anil e lúcido de estrellas
Que se abrem como flores;
Que é o mundo dos seres invisíveis,
De que Deus é o auctor,
De misticismo azul, de inexauríveis
Gosos, de eterno amor ;
Que é doce lá, num êxtase que encanta.
Sentir que a alma se abrasa,
E viver com Jesus e a Virgem Santa
N ’uma tão linda casa…
Mas nunca lhe disseste, inconsolável
Mãe, chorosa mulher,
Que elle, o pequeno, te era indispensável,
Que elle te era mister ;
Que pelos filhos, quando são pequenos,
Muito as mães se consomem,
Alas que a mãe com seu filho conta ao menos
Quando for velha, e ele homem.
Nunca disseste que no escuro trilho
Da vida, Deus que é pae,
Quer que o filho a mãe guie, e a mãe o filho,
Pois um sem o outro cai…
Nunca disseste ! e agora, morto, apertas
Nos braços teu filhinho !
Deixaste as portas da gaiola abertas.
Voou o passarinho…
CORREIA, Raimundo. “Mãe e Filho”. In: Symphonias. Rio de Janeiro; Typ. de Fernandes, Ribeiro & C., 1883, p. 47.
Pesadelo de Emma
(A Cardoso de Menezes Júnior)
ESTA paixão criminosa,
Que o sangue das ilusões
Nutre; e que mata impiedosa,
Todas as outras paixões,
É o amor, que os mais amores
Vence; e o coração, num leito
De espinhos, brasas e dores,
Põe-me, sangrado e desfeito ;
Enche-me todo e, invisível,
Internamente me doi;
Vai-me pela alma e, terrível,
Tudo o que topa destroi;
E, insidioso, coloca
O lábio frio' e visguento
No seio, onde hauria a boca
Dos sonhos—filhos que alento.
Assim, enquanto Emma dorme,
E ao eólio o filho gentil
Lhe suga o leite, uma informe
Serpe a esgueirar-se, sutil,
Da mãe, que o filho amamenta,
Achega-se mansa, mansa,
E troca, pela nojenta
Boca, a boca da criança;
E, macia, a poma cheia
De leite puro a infamar,
Torpe e vil, lúbrica e feia,
Põe-se a mamar, a mamar.,
Junho, 83.
CORREIA, Raimundo. “Pesadelo de Emma”. In: Versos e Versões. Rio de Janeiro; Typ. e Lith Moreira & C., 1887, p. 76.
Sobre um trecho de Millevoye
A Urbano Duarte
Não há quem a emoção não dobre e vença,
Lendo o episódio da leoa brava,
One, sedenta e famélica, bramava
Vagando pelas ruas de Florença.
Foge a população espavorida,
E na cidade deplorável e erma
Topa a leoa só, quase sem vida,
Uma infeliz mulher débil e enferma
Em frente á fera, no estupor do assombro,
Não já por si tremia ella, a mesquinha,
Porém porque era mãe, e o peso tinha.
Sempre caro pras mães, de um filho, ao hombro.
Cegava-a o pranto, enrouquecia-a o choro.
Desvairava-a o pavor !... e entanto, o lindo,
O tenro infante pequenino e louro,
Plácido estava nos seus braços rindo.
E o olhar desfeito em pérolas celestes
Crava a mãe no animal que pára e hesita,
Aquele olhar de súplica infinita,
Que é só próprio das mães em transes d’estes.
Mas a leôa, como se entendesse,
O amor da mãe, incólume deixou-a...
E que esse amor até nas feras vê-se !
P. é que era mãe talvez essa leóa !
CORREIA, Raimundo. “Sobre um trecho de Millevoye”. In: Symphonias. Rio de Janeiro; Typ. de Fernandes, Ribeiro & C., 1883, p. 23.
Projeto de Pesquisa: Tradição e ruptura na poesia de senhor de engenho: imagens da mulher (FALE/ILC/UFPA)
Coordenadora: Profa. Dra. Angela Teodoro Grillo
Bolsista: Ana Lígia Rodrigues Drago (Universal/CNPq)