Cantos Populares do Brasil (1883)
O passarinho
Menina, seu passarinho
Toda a noite eu vi piar;
Eu, como compadecido,
Tive dó do seu penar.
Menina, seu passarinho
Toda a noite me attentou;
Quando foi de madrugada
Foi-se embora e me deixou.
Os passarinhos que cantam
De madrugada com frio,
Uns cantam de papo cheio,
Outros de papo vazio.
Passarinho, que cantaes
No olho do dicury,
Quem por mim perdeu seu somno,
Ja hoje póde dormir.
Passarinho, que cantaes
No olho do majaricão;
Não estou prompta, meu bemzinho,
P'ra soffrer ingratidão.
Passarinho , que cantaes
Alegre aos pés de quem chora,
Si teu canto dá-me allivio,
Não cantes mais, vai-te embora.
Eu comparo o meu viver
Com o viver dos passarinhos,
Presos nas suas gaiola ,
Assim mesmo alégresinhos.
Passarinho, que cantaes,
Repete o canto sonoro;
Uns cantam de papo cheio,
Outros cantão quando eu choro.
Passarinho prêso canta
E preso deve cantar;
Corno foi preso em culpa
Canta para alliviar.
Quem se foi para tão longe
E deixou seu passarinho,
Quando vier não se anoje,
Si achar outro no ninho.
Si eu achar outro no ninho,
Hei-de fazel-o voar;
Qu'eu não fui fazer meu ninho
Para outro se deitar.
Passarinho do capim,
Beija-fulor da limeira,
Não ha dinheiro que pague
Beijo de moça solteira.
ROMERO, Sylvio (org.). “O passarinho”. In: Cantos populares do Brazil. Lisboa: Nova Livraria Internacional, 1883. v. 1. p. 128-129.
Oh ciranda, oh ciranda
Oh ciranda, oh cirandinha,
Vamos todos cirandar;
Vamos dar a meia volta,
Volta e meia vamos dar;
Vamos dar a volta inteira,
Cavalleiro, troque o par.
Rua abaixo, rua acima, S
empre com o chapéo na mão,
Namorando as casadas,
Que as solteiras minhas são.
Aqui estou na vossa porta
Feito um feixinho
de lenha,
Esperando pela resposta
Que da vossa boca venha.
Caranguejo não é peixe,
Caranguejo peixe é ;
Caranguejo só é peixe
Na vasa o te da mar é.
Dá-ri -rá-Já-lálá-lá.
Dá-ri-rá-lá-lá-lá-lé. ..
Caranguejo só é peixe
Na vasante da maré.
Atirei com o limãosinho
Na mocinha da janella;
Deu no cravo, deu na rosa,
Bateu nos peitnbos d'ella.
Craveiro, dá-me um cravo,
Roseira, dá-me um botão;
Menina, me dá meu beijo
Qu'eu te dou meu coração.
Minha mãi bem que me disse
Que eu não fosse á fonçào,
Qu'eu tinha meu nariz tórto,
Servia de mangação.
ROMERO, Sylvio (org.). “Oh ciranda, oh cirandinha”. In: Cantos populares do Brazil. Lisboa: Nova Livraria Internacional, 1883. v. 1. p. 248-249.
Pinheiro
Pinheiro, me dá uma pinha
Qu'eu te darei um pinhão,
Menina, dá-me os teus braços,
Qu'eu te dou meu coração.
Quem tem pinheiro tem pinha,
Quem tem pinha tem pinhão,
Quem tem amores tem zelos,
Quem tem zelos tem paixão.
Oh que pinheiro tão alto,
Que de alto se envergou!
Que menina tão ingrata,
Que de ingrata me deixou!
Que pinheiro tão baixo
Com tamanha galharada !
Nunca eu vi moça solteira
Com tamanha filharada.
ROMERO, Sylvio (org.). “Pinheiro”. In: Cantos populares do Brazil. Lisboa: Nova Livraria Internacional, 1883. v. 1. p.257-258.
Plantei manjaricão na baixa
Plantei manjaricão na baixa,
Alegrim pelos outeiros;
Juntou-se cheiro com cheiro ...
Boa vida é dos solteiros.
Alecrim verde é cheiroso,
O sêcco inda cheira mais;
Mulher que se fia em homens
Toda fica dando ais.
O amor da mulher solteira
É como o vento da tarde;
Deu o vento na roseira,
Acabou-se a lealdade.
O amor de dois solteiros
É como a flôr do feijão;
Quando olham um p'ra outro
Logo mudam de feição.
O amor quando se encontra
Causa susto e mette gosto;
Sobresalta um coração,
Muda o semblante do rosto.
ROMERO, Sylvio (org.) “Plantei manjaricão na baixa”. In: Cantos Populares do Brazil. Lisboa: Nova Livraria Internacional, 1883. v.1. p. 217.
Projeto de Pesquisa: Tradição e ruptura na poesia de senhor de engenho: imagens da mulher (FALE/ILC/UFPA)
Coordenadora: Profa. Dra. Angela Teodoro Grillo
Bolsista: Fabrícia Paraíso de Araújo (PIBIC/ UFPA)