Mil Marias: Grupo de Pesquisa de Imagens da Mulher na Poesia de Língua Portuguesa (FALE/ ILC/ UFPA/ CNPq)                         

 

Cantos Populares do Brasil (1883)


Marca d'água

O sapo do cariri

No sertão do Càriri
Havia um sapo casado;
Na sêcca de oitenta e quatro
Quasi que morre torrado.
Determinou a mudar-se,
Levando comsigo a Gia,
De cabeça para baixo
Em procura da Bahia.
Segurando a sua trouxa,
Seguiu por Caruarú ;
Logo alli á tardesinha
Deu na casa do teyú.
Sapo: Deus vos salve,· meu senhor,
Dá-me um rancho, por favor?
Teyú: Um rancho não posso dar,
Que o senhor não vem só;
Traz em sua companhia
A sua tataravó.
Sapo : A minha tataravó
Ha muito que já morreu ;
Trago em minha companhia
A mulher que Deus me deu.
E venho muito vexado,
Dona Gia está pejada;
'Stou vendo que dão-lhe as dores
Antes que chegue ao riacho.
Teyu Visto isto, meu senhor,
Entremos cá para dentro;
Eis aqui está um quarto,
Faça ahi seu aposento. >>
Logo alli á madrugada
Deu a dôr em Dona Gia;
Descendo escadas abaixo,
Pariu um sapinho macho.


ROMERO, Sylvio (org.). “O sapo do cariri”. In: Cantos populares do Brazil. Lisboa: Nova Livraria Internacional, 1883. v. 1. p. 116-117.

 

Projeto de Pesquisa: Tradição e ruptura na poesia de senhor de engenho: imagens da mulher (FALE/ILC/UFPA)
Coordenadora: Profa. Dra. Angela Teodoro Grillo
Bolsista: Fabrícia Paraíso de Araújo (PIBIC/ UFPA)