Mil Marias: Grupo de Pesquisa de Imagens da Mulher na Poesia de Língua Portuguesa (FALE/ ILC/ UFPA/ CNPq)                         

 

Inês Sabino (1853-1911)


Marca d'água

A morte da virgem

 

À Memória de uma amiga


Foi ao romper da aurora! a alcova é pequenina,
De branco está forrada, e vê-se o bem-estar;
Um leito de alva roupa occulta a moribunda,
Um Cristo de marfim derrama tenro olhar.

Bem junto à cabeceira, a estátua de Maria
Yellando, como mãe, sorri no meditar;
A roda tristemente via-se a família
Aquellas frias mãos, em prantos, afagar.

Nas rendas da almofada, o rosto alabastrino
Estava tão tranquilo e pálido a sorrir!...
Nos ares de ventura, eterna, doce, infinda,
Que goza quem é chão, no plácido dormir.

O meigo olhar sin -elo o fita já turvado,
Cruzando as alvas mãos, ao peito as conchegou;
De vez em quando eleva os olhos para a imagem,
Um longo e terno ai os lábios lhe agitou

Pediu uma tesoura e corta os fios de ouro,
Os distribue sem pena e sem soltar um ai!
Com frios lábios beija a mãe, que tanto amara,
E a pallida cabeça sobre o leito cai!

Morrer!... e o que é a morte ?—apenas mago sonho.
Do qual na eternidade vamos despertar;
Deixar-se para sempre um mundo injurioso,
Nos deve ser um bem, um quedo repousar.

Morrer é redimir-se, o captiveiro finda,
O invólucro se quebra, o êxtase o irradia.
Findando a missão nobre, que a tivera presa,
Se curva à lei que a rege e ebria se extasia.

Morrer quando se é anjo?! oh! que ventura imensa!
Que dulciantes risos nos prepara os céus!
Desprende-se a matéria... o que importa á lama,
Se lá, na eternidade, tudo falia em Deus?!


SABINO, Inês. “A morte da virgem”. In: Impressões: Versos. Pernambuco: Typographia Apollo, 1887, p. 80.

 

Projeto de Pesquisa: Tradição e ruptura na poesia de senhor de engenho: imagens da mulher (FALE/ILC/UFPA)
Coordenadora: Profa. Dra. Angela Teodoro Grillo
Bolsista: Ana Lígia Rodrigues Drago (Universal/CNPq)