Mil Marias: Grupo de Pesquisa de Imagens da Mulher na Poesia de Língua Portuguesa (FALE/ ILC/ UFPA/ CNPq)                         

 

Padre José de Anchieta (1534-1597)


Marca d'água

Como vem guerreira

 


Como vem guerreira
a morte espantosa!
Como vem guerreira e temerosa!

Suas armas são doença,
com que a todos acomete.
Por qualquer lugar se mete,
sem nunca pedir licença.
Tanto que se dá sentença
da morte espantosa,
como vem guerreira
e temerosa!

Por muito poder que tenha,
ninguém pode resistir.
Dá mil voltas, sem sentir,
mais ligeira que uma azenha.
Quando manda Deus que venha
a morte espantosa, "
como vem guerreira
e temerosa!

A uns caça quando comem,
sem que engulam o bocado.
Outros mata no pecado,
sem que gôsto nêle tomem.
Quando menos teme homem
a morte espantosa,
como vem guerreira
e temerosa!

A ninguém quer dar aviso,
porque vem como ladrão.
Se não acha contrição,
então mata mais de liso.
Quando toma de improviso,
a morte espantosa,
como vem guerreira
e temerosa!

Quando esperas de viver
longa vida, mui contente,
ela entra, de repente,
sem deixar-te a perceber.
Quando mostra seu poder,
a morte espantosa,
como vem guerreira
e temerosa!

Tudo lhe serve de espada,
com tudo pode matar;
em todos acha lugar
para dar sua estocada.
A terrível bombardada
da morte espantosa,
como vem guerreira
e temerosa!

A primeira morte mata
o corpo, com quanto tem.
A segunda, quando vem,
a alma e o corpo rapa.
Co'o inferno se contrata
a morte espantosa.
Como vem guerreira
e temerosa!”


ANCHIETA, José de. “Como vem guerreira”. In: Poesias: manuscrito do século XVI, em português, castelhano, latim e tupi. Transcrições, trad. e notas M. de L. de Paula Martins. São Paulo: Comissão do IV Centenário da Cidade, 1954. p. 378-380.

 

Projeto de Pesquisa: Tradição e ruptura na poesia de senhor de engenho: imagens da mulher (FALE/ILC/UFPA)
Coordenadora: Profa. Dra. Angela Teodoro Grillo
Bolsista: Fabrícia Paraíso de Araújo (PIBIC/ UFPA)