Alberto de Oliveira (1859-1937)
Syrinx
I
Pan não era por certo um deus tão lindo -
Que merecesse nympha como aquella ;
Fez mal em persegui-la, e bem fez ella
Pedir a um colmo um encantamento infindo.
Só de vê-lo as oréades, sorrindo,
— E destas uma só não foi tão bella
Como Syrinx, —armadas de cautela,
Prompto aos myrtaes botavam-se, fugindo.
E, pois, por tal cornipede devia
Gastar as ascuas de amoroso incêndio?
Não!—E, a influxo das naiades, um dia,
Perseguida do deus, o movediço
Ladon procura, estende o corpo, estende-o..
E ei-la mudada em trêmulo caniço.
II
Que se imagine como o deus ficara
Quando, crendo estreitar a nympha esperta
Que lhe fugia, apenas uma vara
Delgada e tenra contra o peito aperta,
Vendo-o nessa ilusão, que assim lhe armara
Amor, da opposta margem descoberta,
Um risinho de escárnio, que o desperta,
Tiniu do rio na corrente clara.
Então, da planta virginal, no assomo
Da raiva, o caule fino o deus vergando,
Parte-o em várias porções, de gomo em gomo.
Taes partes junta; e, em música linguagem:
Dos pastores com as vozes concertando:
Põe-se a soprar no cálamo selvagem.
III
Da agreste canna á modula toada,
Da Arcádia pelos íngremes outeiros
Vinham descendo, em lepida manada,
Lestos, saltões, os satyros ligeiros.
E a flébil voz da flauta, soluçada
De ternuras, soava entre os olmeiros;
Já nas grutas as nayades em cada
Sopro os echos lhe escutam derradeiros.
Hamadryadas louras palpitando
Estão no liber das árvores; donosas
Napéias saltam do olivedo, em bando.
E prêsa à flauta a nympha que a origina,
Syrinx pura, as notas suspirosas
Derrama d'alma, a vibração divina.
OLIVEIRA, Alberto de. “Syrinx”. In: Poesias. Rio de Janeiro, 1900, p. 126.
Projeto de Pesquisa: Tradição e ruptura na poesia de senhor de engenho: imagens da mulher (FALE/ILC/UFPA)
Coordenadora: Profa. Dra. Angela Teodoro Grillo
Bolsista: Ana Lígia Rodrigues Drago (Universal/CNPq)