Mil Marias: Grupo de Pesquisa de Imagens da Mulher na Poesia de Língua Portuguesa (FALE/ ILC/ UFPA/ CNPq)                         

 

Padre Manoel De Souza Magalhães (1744-1800)


Marca d'água

Argumento

 


Refutam-se os fundamentos
De alguns homens entendidos,
Que ralham dos instruídos
Em outros conhecimentos:
Mostram-se os roere imentos,
E excelências da poesia:
Que qualquer sabedoria
(Se não abusamos della)
A nossa aventura assella,
A nossa fama é boa.

Quem será sufficiente
A dar-te digno louvor,
Se o teu merito, senhor,
É ás vozes transcendeu te?
Dos homens o mais sciente
Alguma cousa dirá;
Porém onde se achará
Um sábio? Se elle é tão raro!
Quem o será! Eu declaro:

Só um poeta o será.
Nas letras o mais versado,
Sem poesia, é pateta;
Só é sábio o que é poeta,
Como será demonstrado.
Um juiz, um advogado

São mentirosos, tratantes:
Os médicos ignorantes:
Os philosophos sophistas;
Charlatães os moralistas:
Os astrólogos pedantes.

O bom desembargador,
Claro Macedo, meu Brito,
Carvalho, Bastos perito,
O amável coadjutor
Contra mim todo o rigor
Pratiquem sem piedade:
Que eu amo a sinceridade
Sou Catão, em que me mellem
Inda me mo que me pellem,
Hei de fallar a verdade.

Digam que é presumpção minha:
Que me póde isto importar?
Cada um deve chegar
Á braza a sua sardinha,
Que materia me convinha
Mais ajustada, e mais bella?
Sem duvida, nem cautella,
O poeta é sem segundo
E a esses sabios do mundo
Eu trato de bagatella.

Astrea sob o docel
Tem só da espada a armação;
Seus copos de vidro são,
Sua folha é de papel:
A balança sem fiel,
Sem mostrar peso ou medida:

Traz uma venda cingida:
E pela letra trocada,
Passa a justiça vendada
A ser justiça vendida.

Advogado o mais perfeito
Ás leis chama seu conforto;
Mas faz do direito torto,
E do torto faz direito:
Torcendo as leis a seu jeito,
Defende sem compaixão
Com razões a sem razão:
E eis que as bolsas exhauridas,
Vão as partes concluídas,
E os autos sem conclusão.

Quando o médico chamamos,
Traz ele um seguro forte;
Por dar-nos a salvo a morte
Nosso dinheiro lhe damos:
Se da moléstia saramos,
Diz que a vida lhe devemos;
Porém emfim se morremos,
Diz que a hora é definida.
Passam bem a sua vida,
E nós a nossa perdemos!

Dos philosophos, tirados
Os princípio evidente
São as mentiras patentes.
Os erro. continuados:
Em theses alambasados,
Não ha quem poso a atural-os.
Se pertendemos sondal-os.

Mil subterfúgios inventam
Sábios da Grécia se ostentam,
Sendo de Troya cavalos.

Sacro jarreta, alegando
O Larraga, o Busembau,
Corella, Castro Pallau,
Todo vermelho bufando;
O Decretos vomitando,
Os Concilios Synodaes,
Decisões e pastoraes,
e tes incultos Brazis,
É touro do Cariri
Entre os bandos recentaes.

Um Pantana reverendo
Muito sahio se inculcando,
Ad intra as obras mostrando,
Ad extra as obras trazendo;
Sobre os dogmas discorrendo,
Os myterios discutindo
Aos fiei já presidindo
Pregador, ou missionária,
Elle um nescio, um plagiário?,
D'entro d'alma me estou rindo!

O geometra, que lida
Em um trabalho profundo,
Sabendo medir o mundo,
elle vive sem medida:
Pesa bem; ninguém duvida!
Mas nos dá peso incríveis:
Conta os numeras possíveis;
Não faz caso, em razões várias,
Por linhas imaginárias,
Das verdades infalíveis.

Observa o astro inflammado:
Mas vendo luzir nos campos
Os brilhantes perilampos,
A causa ignora; coitado!
Persente o ar perfumado
De aromas encantadores.
Que diz o mor dos doutores
Por observações tão bellas?
Muito da luz das estrellas,
Nada do cheiro das flores.

Aos astros refulgentes
Um certo errantes chamava.
Diogenes lhe tornava:
Vê, bom homem, que tu mentes:
Os astros obedientes
Ás impostas leis, que encerram,
A sombra espessa desterram
Em périodica acção:
Elles errantes não são;
Os homens são os que erram.

Talles, que os astros observa
Na gruta se precipita:
Dóe-se, luta, geme, grita;
Eis que o acode uma serva:
Ah! meu senhor, sem reserva,
O que te convém não vês?
Oh! Quão nescio que tu és!
Loucura maior não há!
Quer ver quem. longe está,
Sem ver o que tens aos pés.

Desses qne já dito tenho
(E os que deixo de dizer)
Que o mais sábio vem a ser
O poeta, a provar venho.
Sem que exgote todo o empenho,
Digo que sem poesia
A mesma facundia é fria:
Não há sem ella eloquência:
Só ela anima a evidência,
Dando às vozes energia.

De que me serve exprimir
O que está no pensamento,
Se a força do meu intento
Venho eu mesmo a destruir?
Ninguém poderá ouvir
(Inda na phrase mais pura)
As descripções sem pintura,
Os discursos sem ardor,
Os conceitos sem valor,
As narrações sem cultura.

Só do poeta a expressão
Faz da fonte uma serpente,
E faz mudar de repente
O mar em feroz dragão:
As Cloris muda em leão,
As Florindas em penedos
Faz Nymphas dos arvoredos,
No céo as flores colloca,
Os astros por flores troca,
Vira as almas em rochedos.

Alexandre suspirava
De Achiles a grande dita,
Ao qual com glória infinita
O grande Homero can tara:
A nenhum sabio invejára!

Todos a este cederam;
Aos outros não se renderam
Distinções tão gloriosas!
Sete cidades famosas
Por Homero contenderam

Se as provas não são completas,
Com Fenelon assevero,
Que a Escriptura excede a Homero
Como Homero aos mais poetas:
A poesia dos prophetas!
De Job os altos talentos!
De David os pensamentes!
As belezas dos cantares!
São as provas singulares
Dos poéticos portentos.

Emfim, Pretor excellente,
Tenho já tocado a meta:
Sendo o mais sábio um poeta,
Vos louva condignamente,
Mas eu fico descontente,
Pois nem um, nem outro sou.
E se aos Grandes agravou
A minha proposição,
Perdoem, pois como a Balaão
Hoje uma Besta falou.

Ora lois fazer as pazes
C'os Homen de bem pertendo
E submisso me arrependo
Dos meus assertos mordazes:
Fora o pensar dos rapazes:

Cada qual no que aprendeu
Ser sábio con fes o eu;
Se outra sciencia estudou,
Nenhum delles se obrigou
A saber o estudo meu.

As razões de tes extremos
As abomino, as escuso;
Que tem o saber c'o abuso,
Que nós do saber fazemos?
Do que estudamos usemos
Com modo e sobriedade.
Eis aqui a utilidade
(Inda apezar dos contrários)
Que nos faz ser necessários
A humana sociedade.

Nas leis gloria não pequena
Teve Licurgo, Ulpiano;
Em curar o corpo humano
Um Galeno, um Avicena:
As leis da natura ordena
Newton, Copernico igual:
Thomaz de Aquino em moral:
Euclide em geometria:
E Archimedes todavia:
Todos têm gloria immortal.

Agora transcreverei
O que do sábio se escreve:
Arte longa, vida breve.
Eu só sei que nada sei:
Nem isto mesmo direi:
Não sei o que é ignorar:

Filho do erro, heí errar
Minha inopia reconheço.
Com o propheta confesso
A... a... a... Não sei fallar.


MAGALHÃES. Manoel de Souza. “Argumento”. In: FILHO, Mello Morais (org.). Parnaso Brasileiro. Rio de Janeiro: B. L. Garnier, 1885. v. 1. p. 286-290.

 

Projeto de Pesquisa: Tradição e ruptura na poesia de senhor de engenho: imagens da mulher (FALE/ILC/UFPA)
Coordenadora: Profa. Dra. Angela Teodoro Grillo
Bolsista: Fabrícia Paraíso de Araújo (PIBIC/ UFPA)