Raimundo Correa (1859-1911)
Flor Azul
A flor azul pendia murcha; e, agora,
Eil-a outra vez erguida
N’ Hasteia, a sorrir, fresca, cheirosa e bela.
Que Nume, com. o aroma e a côn, a vida
Lhe deu, de novo? A aurora?
A brisa? O orvalho? A luz?...
— Não! foi aquella
Palida ninfa, cujo olhar piedoso
Na flôr poisara, há pouco: — da saphira
Desse olhar, na do cálice oloroso,
Uma lágrima trêmula cahira...
CORREIA, Raimundo. “Flor Azul”. In: Poesias. 4 ed. São Paulo; Unesp, 1898, p. 78.
Coerulei Oculi
CERTA mulher misteriosa,
Que me alucina, costuma
Manter-se em pé, silenciosa,
Junto ao mar, que ferve e espuma.
No olhar onde o céu se pinta,
Que paleta singular,
Ao amargo azul a tinta
Glauca mistura do mar ? !
Na languorosa pupila
Boia uma tristeza vaga,
E a lágrima, que vacila
E rola, o seu lume apaga.
Lembram-me os cílios suaves,
A palpitar, branca e exul
Tribo de aquáticas aves
Sobre o indefinido azul..
Qual d'água no transparente
Prisma, do olhar se devassa
No fundo, nitidamente,
Do rei de Thule a áurea taça ;
E, entre a alga e o sargaço, a gemma
Mais rara deslumbra, e estão
De Cleópatra o diadema
E o anel do rei Salomão ;
E a irradiação irisada
Das pedrarias se accende ;
E a coroa da bailada
De Schiller fulge e resplende.
Mago prestigio me enleia
E ao fundo abysnío de luz
Me arrasta, como a sereia,
Que a Harald Haifagar seduz.
Me arrasta à ignota voragem,
Até que eu n'ela me arroje
Trás da impalpável imagem,
Que, aérea e fatua, me foge.
N'água esconde a ninfa bela
A cauda argentea; e o brancor
Da espádua lisa revela,
Corando, da espuma à flor...
Incha, e, como um seio, arqueja
A vaga; em mórbido accento,
Na cava concha, solfeja,
Soluça, resona o vento. . .
Vem, reclina-te em meu leito
De âmbar, e o saibo de fel
Das ondas verás, desfeito,
Manar-te da bocca, em mel ;
O pélago estoura e zune
Por cima; e a paz aqui mora
Sem que o rumor a importune
Das tempestades de fora ;
« Vem ! Sem tédio, nem bocejos,
O esquecimento immortal
Bebamos juntos, dos beijos
Pelo copo de coral!
Assim é que a voz me falia,
D'esse olhar, que me extasia;
E ao fundo d'agua, a escutal-a,
Desço ; e o himeneu principia..
Março, 86.
CORREIA, Raimundo. “Coerulei Oculi”. In: Versos e Versões. Rio de Janeiro; Typ. e Lith Moreira & C, 1887, p. 15.
Emissário dos deuses
A casta irmã do Sol (porque não ache
Bem numerosa a comitiva bella
De suas nymphas) augmental-a intenta ;
E alto emissário, á Terra, faz que baixe,
Para, entre as filhas mais formosas delia
E mais castas, colher-lhe umas... noventa.
Pobre emissário! Está perdida a Terra !
Debalde, percorreu praças e ruas
De cidades e aldeias...
Muita mulher formosa o mundo encerra;
Castas, porém, elle encontrou só duas,
E essas duas., horrivelmente feias !
CORREIA, Raimundo. “Emissário dos deuses”. In: Aleluias. Rio de Janeiro; Companhia Editora Fluminense, 1891, p. 185.
Tentações do Ermo
O asceta que trocara os bens mundanos
Pelo místico pão amargurado,
Deixa agora o retiro, onde, isolado,
Ia, na paz de Deus, contando os anos?!
É que ele, quando aos laços e aos enganos
Do mundo se esquivou, tinha um pecado:
Em Virgílio e em Catulo era versado,
Em Ovídio e outros clássicos profanos...
E um dia, indo apanhar ervas ao monte,
E o púcaro de barro encher na fonte,
Viu... (Ou seria uma ilusão talvez)
Viu surgir entre as moitas a Serpente:
Uma ninfa... e vestida unicamente
Da tentadora, feminil nudez.
CORREIA, Raimundo. “Tentações do Ermo”. In: Poesias. 4 ed. São Paulo; Unesp, 1898, p. 141.
Projeto de Pesquisa: Tradição e ruptura na poesia de senhor de engenho: imagens da mulher (FALE/ILC/UFPA)
Coordenadora: Profa. Dra. Angela Teodoro Grillo
Bolsista: Ana Lígia Rodrigues Drago (Universal/CNPq)