Padre José de Anchieta (1534-1597)
A santa Inês
Cordeirinha linda,
como folga o povo
porque vossa vinda
lhe dá lume novo!
Cordeirinha santa,
de Iesu querida,
vossa santa vinda
o diabo espanta.
Por isso vos canta,
com prazer, o povo,
porque vossa vinda
lhe dá lume novo.
Nossa culpa escura
fugirá depressa,
pois vossa cabeça
vem com luz tão pura.
Vossa formosura
honra é do povo,
porque vossa vinda
lhe dá lume novo.
Virginal cabeça
pola fé cortada,
com vossa chegada,
já ninguém pereça.
Vinde mui depressa
ajudar o povo,
pois com vossa vinda
lhe dais lume novo.
Vós sois, cordeirinho
de Iesu formoso,
mas o vosso espôso
já vos fêz rainha.
Também padeirinha
sois de nosso povo,
pois, com vossa
vinda, lhe dais
lume novo.
II
Não é d'Alentejo
êste vosso trigo,
mas Jesus amigo
é vosso desejo.
Morro porque vejo
que êste nosso povo
não anda faminto
dêste trigo novo.
Santa padeirinha,
morta com cutelo,
sem nenhum farelo
é vossa farinha.
Ela é mezinha
com que sara o
povo, que, com
vossa vinda, terá
trigo novo.
O pão que amassastes
dentro em vosso peito,
é o amor perfeito
com que a Deus
amastes Cantam:
Dêste vos fartastes
dêste dais ao povo:
porque deixe o
velho polo trigo
novo.
Não se vende em praça
êste pão de vida,
porque é comida
que se dá de graça.
Ó preciosa massa!
Ó que pão tão novo
que, com vossa vinda,
quer Deus dar ao povo!
Ó que doce bolo,
que se chama graça!
Quem sem êle passa
é mui grande tolo.
Homem sem miolo,
qualquer dêste povo,
que não é faminto
dêste pão tão novo!
II
Cantam:
Entrai ad altare Dei,
virgem mártir mui formosa,
pois que sois tão digna
espôsa de Iesu, que é
sumo rei.
Debaixo do sacramento,
em forma de pão de
trigo,
vos espera, como amigo,
com grande contentamento.
Ali tendes vosso assento.
Entrai ad altare Dei,
virgem mártir mui formosa,
pois que sois tão digna
espôsa de Iesu, que é
sumo rei.
Naquele lugar estreito
cabereis bem com Jesus,
pois êle, com sua cruz,
vos coube dentro no peito,
Ó virgem de grão respeito.
Entrai ad altare Dei,
virgem mártir mui formosa,
pois que sois tão digna espôsa de
Iesu, que é sumo rei.”
ANCHIETA, José de. “A santa Inês”. In: _Poesias: manuscrito do século XVI, em português, castelhano, latim e tupi. Transcrições, trad. e notas M. de L. de Paula Martins. São Paulo: Comissão do IV Centenário da Cidade, 1954. p. 381-383.
Dia da assunção, quando levaram sua imagem para retiba
Anjo, no caminho - Vem, Virgem Maria,
mãe de Deus, visitar esta aldeia
e expulsar dela o demônio.
Oxalá, por teu amor,
ela se santifique !
Afasta as enfermidades
-febres, disenterias,
as corrupções e a tosse-
para que seus habitantes
creiam em Deus, teu filho.
Diabo - Não, vens debalde
afastar-me da aldeia.
Todos, na taba,
gostam de mim
e conservar-me-ão.
Retoma teu caminho ;
eu não consentirei que entres.
Como êstes índios da serra,
aqui estou em minha casa
e não simpatizam contigo …
Anjo - Que absurdo estás dizendo !
Os habitantes da serra
amam a Nosso Senhor.
Vai, cai tu no fogo !
Anjo custódio da aldeia,
dela expulsa-te-ei.
Entrará agora a mãe de Deus.
Cuidado ! Vou atacar-te
20. Diabo -Pobre de mim !
A mãe de Deus libertou
a terra que era minha .. .
Virgem é minha inimiga !
Fala com seus companheiros:
33. Diabos - Vamos fugir da
aldeia antes que nos expulsem
dela !
-Eia ! Vamos depressa
longe os pecados levar . ..
II - Seis selvagens que dançam os machatins:
1° -Vivemos como selvagens,
somos filhos da floresta.
Viemos saudar-te,
renunciamos aos vícios.
2º- Quem dera te acompanhássemos,
entrando no reino de Deus !
Vem ensinar-nos
a seguir tuas leis.
3°-Do meio da mata
venho, para assistir à tua
recepção. Vem, converte-me
à tua virtude.
4° -Hoje, em homenagem à tua visita
repudiarei meus defeitos. '
Aproximo-me do verdadeiro
Deus. Venerarei suas palavras
…
5°-Aqui estou à tua frente
- eu, que era um rebelde!
Vem abrigar-me
em tua virtude!
6° -Deixei a floresta
em tua honra .
Ama-me muito,
livra-me de todo o mal.
Dançam, dois e, em presença dos do serlão, dizem :
- 1° vivendo na serra,
não sei muita coisa.. .
Danço aqui
à moda dos meus.
Eu já conheço Deus,
teu filho, Senhora.
Assim, agora,
detesto a maldade.
2° - Aqui está a minha gente
que morava em Maratauã.
Conhecendo o teu nome,
invoca-o continuamente.
Estamos aflitos
com a moléstia do padre.
Vem, mãe de Deus,
saná-lá depressa !
III
Anjo -Eis-me aqui para ajudar-te.
A mandado do Senhor,
venho guardar a tua alma,
para que, morte embora o teu corpo,
suba tua alma ao seu reino.
Por tua fé em Jesus,
tu suportaste flechas.
Vem ser feliz, agora,
no reino dos anjos !
Chama-te “São Sebastião”.
Jesus te santificou.
Fêz-te glorioso o nome,
a ti, que crivaram de setas.
Êstes habitantes de aldeia
estão fazendo festa em tua
honra, visitando a igreja,
assim êste dia
tornando sagrado.
De agora em diante,
vem sempre visitar a aldeia,
para, do mal,
proteger seus habitantes .
Faz que todos os homens
observem as leis de Deus.
Que mulheres , velhas,
crianças, afastem os
pecados
desta aldeia formosa.
ANCHIETA, José de. “Dia da assunção, quando levaram sua imagem a reritiba”. In: Poesias: manuscrito do século XVI, em português, castelhano, latim e tupi. Transcrições, trad. e notas M. de L. de Paula Martins. São Paulo: Comissão do IV Centenário da Cidade, 1954. p. 561-
572.
Como vem guerreira!
“Como vem guerreira
a morte espantosa!
Como vem guerreira e temerosa!
Suas armas são doença,
com que a todos acomete.
Por qualquer lugar se mete,
sem nunca pedir licença.
Tanto que se dá sentença
da morte espantosa,
como vem guerreira
e temerosa!
Por muito poder que tenha,
ninguém pode resistir.
Dá mil voltas, sem sentir,
mais ligeira que uma azenha.
Quando manda Deus que venha
a morte espantosa, "
como vem guerreira
e temerosa!
A uns caça quando comem,
sem que engulam o bocado.
Outros mata no pecado,
sem que gôsto nêle tomem.
Quando menos teme homem
a morte espantosa,
como vem guerreira
e temerosa!
A ninguém quer dar aviso,
porque vem como ladrão.
Se não acha contrição,
então mata mais de liso.
Quando toma de improviso,
a morte espantosa,
como vem guerreira
e temerosa!
Quando esperas de viver
longa vida, mui contente,
ela entra, de repente,
sem deixar-te a perceber.
Quando mostra seu poder,
a morte espantosa,
como vem guerreira
e temerosa!
Tudo lhe serve de espada,
com tudo pode matar;
em todos acha lugar
para dar sua estocada.
A terrível bombardada
da morte espantosa,
como vem guerreira
e temerosa!
A primeira morte mata
o corpo, com quanto tem.
A segunda, quando vem,
a alma e o corpo rapa.
Co'o inferno se contrata
a morte espantosa.
Como vem guerreira
e temerosa!”
ANCHIETA, José de. “Como vem guerreira!”. In: Poesias: manuscrito do século XVI, em português, castelhano, latim e tupi. Transcrições, trad. e notas M. de L. de Paula Martins. São Paulo: Comissão do IV Centenário da Cidade, 1954. p.379-380.
Quando, no espírito santo, se recebeu uma relíquia das onze mil virgens
“ Diabo- Temos embargos, donzela,
a serdes dêste lugar.
Não me queiras agravar,
que, com espada e rodela,
vos hei de fazer voltar.
Se lá na batalha do mar
me pisastes,
quando as onze mil juntastes,
que fizestes em Deus crer,
não há agora assim de ser.
Se, então, de mim triunfastes,
hoje vos hei de vencer.
Não tenho contradição
em tôda a Capitania.
Antes, ela, sem porfia,
debaixo de minha mão
se rendeu com alegria.
Cuido que errastes a via
e o sol tomastes mal.
Tornai-vos a Portugal,
que não tendes sol nem dia,
senão a noite infernal
de pecados,
em que os homens, ensopados,
aborrecem sempre a luz.
Se lhes falardes na Cruz,
dar-vos-ão, mui agastados,
no peito, c'um arcabuz.
(Aqui dispara um arcabuz.)
Anjo- Ó peçonhento dragão e pai de tôda a mentira,
que procuras perdição,
com mui furiosa ira,
contra a humana geração!
Tu, nesta povoação,
não tens mando nem poder,
pois todos pretendem ser,
de todo seu coração,
inimigos de Lucifer.
Diabo- Ó que valentes soldados!
Agora me quero rir ! ...
Mal me podem resistir
os que fracos, com pecados,
não fazem senão cair !
Anjo- Se caem, logo se levantam, e
outros ficam em pé.
Os quais, com armas da fé,
te resistem e te espantam,
porque Deus com êles é.
Que com excessivo amor
lhes manda suas espôsas
- onze mil virgens formosas-,
cujo contínuo favor
dará palmas gloriosas.
E para te dar maior pena
a tua soberba inchada '
quer que seja derribada
por u'a mulher pequena.
Diabo-Ó que cruel estocada
m'atiraste
quando a mulher nomeaste!
Porque mulher me matou,
mulher meu poder tirou,
e, dando comigo ao traste,
a cabeça me quebrou.
Anjo - Pois agora essa mulher
traz consigo estas mulheres,
que nesta terra hão de ser
as que lhe alcançam poder
para vencer teus poderes.
Diabo- Ai de mim, desventurado!
(Acolhe-se Satanás.)
Anjo-Ó traidor, aqui
jarás de pés e mãos
amarrado,
pois que perturbas a paz
dêste pueblo sossegado!
Diabo- Ó anjo, deixa-me já,
que tremo desta senhora!
Anjo- Com tanto que te vás
fora e nunca mais tornes cá.
Diabo- Ora seja na má
hora! (Indo-se, diz a
povo)
O deixai-vos descansar
sôbre esta minha
promessa: eu darei
volta, depressa,
a vossas casas cercar
e quebrar-vos a cabeça!
II
Vila- Mais rica me vejo agora
que nunca dantes me vi,
pois que ter-vos mereci,
virgem mártir, por senhora.
O Senhor onipotente
me fêz grande benefício,
dando-me aquela
excelente legião da
esforçada gente
do grande mártir Maurício.
Neste dia
se dobra minha alegria
com vossa vinda,
Senhora. E, pois a
Capitania
hoje tem maior valia,
mais rica me vejo agora.
Com a perpétua memória
de vossa mui santa vida
e ela morte esclarecida,
com que alcançastes
vitória, morrendo sem
ser vencida,
serei mais favorecida,
pois vindes morar em
mi.
Porque, tendo-vos aqui,
fico mais enriquecida
que nunca dantes me vi.
Da Senhora da Vitória,
"Vitória" sou nomeada.
E, pois sou de vós amada,
d' onze mil virgens na glória
espero ser coroada.
Por vós sou alevantada
mais do que nunca subi,
para que, subindo assi,
não seja mai derrubada,
pois que ter-vos mereci.
Meus filhos ficam honrados
em vos terem por princesa,
porque, de sua baixeza,
por vós serão levantados
a ver a divina alteza.
Tudo temos,
pois que tendo a vós,
teremos a Deus, que
convosco mora,
e logo, des desta hora,
todos vos reconhecemos,
virgem mártir, por Senhora.
Um companheiro (2) de São
Mauricio vem ao caminho à
virgem, e diz:
Tôda esta Capitania,
virgem mártir gloriosa,
está cheia d' alegria,
pois recebe, neste dia,
u' a mãe tão piedosa.
Nós somos seus padroeiros,
com tôda nossa legião
dos tebanos cavaleiros,
soldados e companheiros
de Maurício Capitão.
Êle espera já por vós
e tem prestes a pousada
para, com vossa manada,
serdes, como somos nós,
dêste lugar advogada.
Úrsula- Para isso sou mandada.
E com vossa companhia,
faremos mui grossa armada,
com que seja bem guardada
a nossa capitania.
III
Ao entrar da igreja, fala São Mauricio
com São Vital (3), e diz:
Maurício- Não bastam fôrças humanas,
não digo para louvar,
mas nem para bem cuidar
as mercês tão soberanas
que, com amor singular,
Deus eterno,
abrindo o peito paterno,
faz a todo êste lugar,
para que possa escapar
do bravo fogo do inferno,
e salvação alcançar.
Ditosa capitania,
que o sumo Pai e Senhor
abraça com tanto amor,
aumentando cada dia
suas graças e favor!
Vital- Ditosa, por certo, é,
se não fôr desconhecida,
ordenando sua vida
de modo que junte a fé
com caridade incendida.
Porque as mercês divinais
então são agradecidas
quando os corações leais
ordenam bem suas vidas
conforme as leis celestiais.
Maurício- Bem dizeis, irmão Vital,
e, por isso, os sabedores
dizem que obras são
amores, com que seu
peito leal
mostram os bons amadores.
Vital- E dêstes, quantos cuidais
que se acham nesta terra?
Maurício- Muitos há, se bem
olhais, que contra os vícios
mortais
andam em perpétua guerra,
e guardando, com cuidado, a
lei de seu Criador,
mostram bem o fino amor
que têm, no peito
encerrado, de Iesu, seu
Salvador.
Vital-- Êstes tais sempre terão
lembrança do benefício
de terem por seu patrão,
com tôda nossa legião,
a vós, Capitão Maurício.
Maurício- Assim têm. E,
por isso, o sumo· bem
lhes manda aquelas
senhoras onze mil
virgens, que vêm
para conosco, também,
serem suas guardadoras.
Vital- Tão gloriosas donzelas
merecem ser mui honradas.
Maurício- E conosco
agasalhadas, pois que são
virgens tão belas, de martírio
coroadas!
Recebendo a virgem, diz:
Úrsula, grande princesa,
do sumo Deus mui
amada,
boa seja a vossa entrada,
grande pastora e cabeça
de tão formosa manada!
Úrsula- Salve, grande Capitão
Maurício, ele Deus querido!
Êste povo é defendido
por vós e vossa legião
e nosso Deus mui servido.
Maurício- Sou dêle agora mandada a
ser vossa companheira.
Defensora e padroeira
desta gente tão honrada,
que segue nossa bandeira.
Nós dêles somos honrados,
êles guardados de nós.
Porque não sejamos sós,
serão agora ajudados
conosco também, de vós.
Úrsula- Se os nossos portuguêses
nos quiserem sempre honrar,
sentirão poucos reveses.
De inglêses e franceses
seguros podem estar.
Vital- Quem levantará pendão
contra seis mil cavaleiros
de nossa forte legião,
e contra o grande esquadrão
ele vossos onze milheiros?
Úrsula- Os três inimigos
d' alma começam a desmaiar.
E, pois tem êste lugar
nome de Vitória, e palma,
sempre deve triunfar.
Vitória- Isso é o que Deus quer.
Guardem êles seu mandado,
que nós teremos cuidado
de guardar e engrandecer
êste nosso povo amado.
Se quereis
aqui ficar, podereis.
Nem tendes melhor lugar
que aquêle santo altar
no qual, conosco, sereis
venerada sem cessar.
Úrsula- Seja assi !
Recolhamo-nos aí,
com nosso senhor Jesus,
por cujo amor padeci,
abraçada com a cruz
em que êle morreu por mi.
Levando-a ao altar, lhe cantam:
Entrai ad altare Dei,
virgem mártir mui formosa,
pois que sois tão digna espôsa
de Jesus, que é sumo rei.
Naquele lugar estreito
cabereis bem com Jesus,
pois êle, com sua cruz,
vos coube dentro no peito.
Ó virgem de grão respeito,
entrai ad altare Dei,
pois que sois tão digna espôsa
de Jesus, que é sumo rei.”
ANCHIETA, José de. “Quando, no espírito santo, se recebeu uma relíquia das onze mil virgens”. In: Poesias: manuscrito do século XVI, em português, castelhano, latim e tupi. Transcrições, trad. e notas M. de L. de Paula Martins. São Paulo: Comissão do IV Centenário da Cidade, 1954. p.389-397.
Projeto de Pesquisa: Tradição e ruptura na poesia de senhor de engenho: imagens da mulher (FALE/ILC/UFPA)
Coordenadora: Profa. Dra. Angela Teodoro Grillo
Bolsista: Fabrícia Paraíso de Araújo (PIBIC/ UFPA)