Mil Marias: Grupo de Pesquisa de Imagens da Mulher na Poesia de Língua Portuguesa (FALE/ ILC/ UFPA/ CNPq)                         

 

Raul Bopp (1898-1984)

 


Marca d'água

Milu

 


Na fazenda. Ao cair da noite.
A escrava mais nova ainda não tinha voltado da lavoura grande.

Vinha cantando, sozinha, pela estrada,
Quando, de surpresa, o feitor apeou-se do cavalo e agarrou-a
[brutalmente pela cintura elástica.

Gritou, gritou, cheia de susto,
No ermo da grande tarde selvagem.

Mas ele era branco e tinha os músculos mais fortes…

As árvores tapavam os olhos, com vergonha.
Levava ainda um cheiro de terra dos caminhos.


BOPP, Raul. “Milu”. In: Versos Antigos (1916-1930). In: Poesia Completa de Raul Bopp. Rio de Janeiro: José Olympio Editora, 2014, p.94.

 


Marca d'água

Dona Chica

 


A negra serviu o café.

— A sua escrava tem uns dentes bonitos dona Chica.
— Ah o senhor acha?

Ao sair
a negra demorou-se com um sorriso na porta da varanda.

Foi entoando uma cantiga casa-a-dentro:

Ai do céu caiu um galho
Bateu no chão. Desfolhou.

Dona Chica não disse nada.
Acendeu ódios no olhar.

Foi lá dentro. Pegou a negra.
Mandou metê-la no tronco.

— Iaiá Chica não me mate!
— Ah! Desta vez tu me pagas.

Meteu um trapo na boca.
Depois
quebrou os dentes dela com um martelo.

— Agora
junte esses cacos numa salva de prata
e leve assim mesmo,
babando sangue,
pr’aquele moço que está na sala, peste!


BOPP, Raul. “Dona Chica”. In: Urucungo: Poemas Negros .In: Poesia Completa de Raul Bopp. Rio de Janeiro: José Olympio Editora, 2014, p. 191.

 


Marca d'água

Mãe Preta

 


— Mãe-preta conte uma história.
— Então feche os olhos filhinho:

Longe muito longe
era uma vez o rio Congo…

Por toda parte o mato grande.
Muito sol batia o chão.

De noite
chegavam os elefantes.
Então o barulho do mato crescia.

Quando o rio ficava brabo
inchava.

Brigava com as árvores.
Carregava com tudo, águas abaixo,
até chegar na boca do mar.

Depois...

Olhos da preta pararam.
Acordaram-se as vozes do sangue,
glu-glus de água engasgada
naquele dia do nunca-mais.

Era uma praia vazia
com riscos brancos de areia
e batelões carregando escravos.

Começou então
uma noite muito comprida.
Era um mar que não acabava mais.

... depois…

— Ué mãezinha,
por que você não conta o resto da história?


BOPP, Raul. “Mãe Preta”. In: Urucungo: Poemas Negros .In: Poesia Completa de Raul Bopp. Rio de Janeiro: José Olympio Editora, 2014, p. 194.

 

Projeto de Pesquisa: Tradição e ruptura na poesia de senhor de engenho: imagens da mulher (FALE/ILC/UFPA)
Coordenadora: Profa. Dra. Angela Teodoro Grillo
Bolsista: Ana Lígia Rodrigues Drago (Bolsa CNPq/Universal)