Raul Bopp (1898-1984)
Dona Chica
A negra serviu o café.
— A sua escrava tem uns dentes bonitos dona Chica.
— Ah o senhor acha?
Ao sair
a negra demorou-se com um sorriso na porta da varanda.
Foi entoando uma cantiga casa-a-dentro:
Ai do céu caiu um galho
Bateu no chão. Desfolhou.
Dona Chica não disse nada.
Acendeu ódios no olhar.
Foi lá dentro. Pegou a negra.
Mandou metê-la no tronco.
— Iaiá Chica não me mate!
— Ah! Desta vez tu me pagas.
Meteu um trapo na boca.
Depois
quebrou os dentes dela com um martelo.
— Agora
junte esses cacos numa salva de prata
e leve assim mesmo,
babando sangue,
pr’aquele moço que está na sala, peste!
BOPP, Raul. “Dona Chica”. In: Urucungo: Poemas Negros .In: Poesia Completa de Raul Bopp. Rio de Janeiro: José Olympio Editora, 2014, p. 191.
Drama Cristão
Os pais da moça facilitaram...
Ela, de noite, ficou sozinha
com o namorado, num caramanchão.
Um dia estourou a história.
Veio gente da vizinhança.
A mãe teve um chilique.
O pai esbravejava na varanda:
— Agora tem que casar!
— Quem é que bate na porta?
— São os homens do exame pericial.
O telefone não parava.
O escândalo ferveu depressa em todo o bairro.
Depois correu o boato
que o rapaz já estava preso.
Mas em poucos dias
a situação virou toda em rosas.
Com as bênçãos do padre e presença da polícia
realizou-se o ato de união indissolúvel.
Houve bolo de noiva e quindins pela vizinhança.
Estava salva a honra da família.
O pai como de costume
continuou a ler o Jornal do Commercio
A mãe fazia tricô
para o futuro bebê.
BOPP, Raul. “Drama Cristão”. In: Diábolus .In: Poesia Completa de Raul Bopp. Rio de Janeiro: José Olympio Editora, 2014, p. 269.
Projeto de Pesquisa: Tradição e ruptura na poesia de senhor de engenho: imagens da mulher (FALE/ILC/UFPA)
Coordenadora: Profa. Dra. Angela Teodoro Grillo
Bolsista: Ana Lígia Rodrigues Drago (Bolsa CNPq/Universal)