Mil Marias: Grupo de Pesquisa de Imagens da Mulher na Poesia de Língua Portuguesa (FALE/ ILC/ UFPA/ CNPq)                         

 

Cruz e Sousa (1861-1898)


Marca d'água

Roma Pagã

 


Na antiga Roma, quando a saturnal fremente
Exerceu sobre tudo o báquico domínio,
Não era raro ver nos gozos do triclínio
A nudez feminina imperiosa e quente.

O corpo de alabastro, olímpico e fulgente,
Lascivamente nu, correto e retilíneo,
Num doce tom de cor, esplêndido e sanguíneo,
Tinha o assombro da carne e a forma da serpente.

A luz atravessava em frocos d’oiro e rosa
Pela fresca epiderme, ebúrnea e setinosa,
Macia, da maciez dulcíssima de arminhos.

Menos raro, porém, do que a nudez romana
Era ver borbulhar, em férvida espadana
A púrpura do sangue e a púrpura dos vinhos.


SOUSA, João da Cruz e. “Roma Pagã”. In: Outros sonetos. In: Obra completa: poesia / João da Cruz e Sousa. Organização e estudo por Lauro Junkes. Jaguará do Sul: Avenida; 2008, vol. 1, p. 113.

 

Projeto de Pesquisa: Tradição e ruptura na poesia de senhor de engenho: imagens da mulher (FALE/ILC/UFPA)
Coordenadora: Profa. Dra. Angela Teodoro Grillo
Bolsista: Ana Lígia Rodrigues Drago (Universal/CNPq)