Mil Marias: Grupo de Pesquisa de Imagens da Mulher na Poesia de Língua Portuguesa (FALE/ ILC/ UFPA/ CNPq)                         

 

Padre José Gomes da Costa Gadelha (1743-17?)


Marca d'água

Os suspiros da aletria

 


Era alta noite; tinha caminhado
Metade da estelifera campina
A caçadora deusa, e para o lado
De Bootes seu gyro a Ursa declina:
O mitrado cardume, sujo gado,
Que para o ar Proteo cruel destina,
Do socego do mar favorecido,
Pelo convez jazia adormecido.

Mal o frio silêncio interrompia
De quando em quando o leme que rosnava;
O vento, o mesmo vento parecia,
Que no seio das águas repousava.
Apenas o piloto de vigia,
E outro phoca, que o rumo demandava,
Apenas estes dous são acordados,
E eu, que atento assistia aos meus cuidados.

Quando lá das cavernas do mais fundo
Do navio uma voz sahe combatendo
Um passo, e outro passo torpe, e immundo,
Que em laivos de alcatrão a vai prendendo:
Tão cortado, tão triste, e tão profundo
Era o som, que opprimil-o não podendo
Prego, madeira, breu, tudo cedia
Aos pungentes clamores da aletria.

«Assucar, caro assucar, meu vizinho!
Porém vizinho não, meu companheiro!
Onde estás? Oh mal haja o que caminho
Pelo mar não trilhado abrio primeiro!
Se era homem na forma esse mesquinho,
Não devia ser homem verdadeiro;
Tinha corpo de páo, alma de ferro;
Digno de muitas mortes por seu erro.

Onde estavam, Neptuno, os teus cruentos
Baixos? Teus cégos váos, teus duros morros?
Aonde, alto imperante, rei dos ventos,
Aonde, Eolo, estavam teus cachorro?
E não correm cruei , loucos, sedentos
A tragal-os co'os seus vermelhos gorros,
Antes que na irrupção de dous impérios
Tragam mortes, divorcios, vitupérios?

Pela doce união, vínculo grato,
Que na terra, meu bem, faço contigo,
Não há mesa asseiada rico prato,
Em que logo não venham ter comigo:
Tudo que é gosto bom, fino palato,
Me festeja me dá risonho abrigo
Ando ele mão em mão, de boca em boca,
A qual primeiro diga: isto me toca.

Aqui porém de ti divorciada
Pela negra ambição de um phoca escasso,
Insulsa sem sabor, desconsolada,
Da marmita á bandeja afflicta passo:
Só me gosta a brutal gente mitrada,
Ao limo affeita, á turba, e ao sargaço;
Que pessoa de bem, gente de gosto,
Mal aos beiços me chega, volta o rosto.

Que eu nesta fatal uma, escuro seio,
Viva incognita a todos, pouco importa:
Que assim me veja quem com tanto asseio
Já me vio ... oh! quizera antes ser morta!
Esta a causa do meu mísero enleio...
Este objecto me vence, e me transporta
Ver-me em triste repudio, em tal retiro
É de pejo, e vergonha o meu suspiro.

Triste, mil vezes triste soledade!
Só para mim, cruel, no mar te avanças?
Tudo o mais goza aqui de sociedade,
Os mais todos tem suas alianças.
Ah! Quando te hei de ver, minha saudade?
Assucar, minhas doces esperanças!
Quando, quando virás ao meu regaço?
Ah! Quando te hei de dar um terno abraço?

Aos echos tristes desta voz chorosa
Commove-se o paiol, sahe da barrica
A protestante brôa carunchosa
Cujo antigo solar em Londres fica:
Velha, calva, sem dentes, e rugosa,
a sua meia língua mal se explica:
Porém como não era muito tôla,
Á aletria saudando, assim consola:

Prima, querida prima! (Isto dizendo,
Deita-lhe o secco braço no pescoço:
A aletria por honra a vai sofrendo
Mas que náusea! Que tédio! Que alvoroço!)
O coração me e tá, prima, revendo
Vosso justo queixume, o pranto vosso!
Consolai-vos, que tendes companheira,
Sem que me valha a graça de estrangeira.

Ao bom queijo frescal, manteiga nova
Nos anglicos navios ociada,
Um me gaba, este pucha, outro o renova,
Todos rindo me dão sua dentada:
Mas aqui, se por fome algum me prova,
Logo sou descomposta, e praguejada.
Como se fôra acaso culpa minha
Ter quem de lá me trouxe alma mesquinha.
Somos parentas, não t'o nego, ó brôa,
Mas legítima eu ou, tu és bastarda
E esta desigualdade de pessoa
Também a queixa igual razão não guarda:
Além de que, te faz união boa
O caruncho, que sempre teu de guarda. »
Isto disse a aletria com interesse
De que mais outro abraço. lhe não desse.

Vem o trucado peixe, que nos banco
A cabeça deixou, pois não convinha
Lê-se-Ihe o mundo no cabelos branco
A decrepita idade que já tinha:
E bem que assim não traga o dias franco,
Descobre-se· nas épocas da espinha,
Que o vira a Gran-Bretanha entrar escravo
No reinado infeliz de Henrique oitavo.

A um bordão arrimado o pobre velho,
Cada passo uma quéda lhe oferecia,
Té que chega por fim, sujo, e vermelho,
E emphatico assim falIa á aletria:
« Este caduco, trêmulo conselho,
Estes annos, senhora, esta polia
De que venho a teus pés todo coberto,
Que não desprezes tu parece acerto.

Todos aqui lamentam; na verdade,
Cada qual mostra a causa pelo efeito,
Tem razão; porém eu na minha idade
Lá mostro ter na mágoa mais direito.
O teu mimo, finura, e gravidade
Justamente requer igual respeito;
Porém entre estes lobos carniceiros
Todos, velhos ou moços, são cordeiros.

Nunos! Castros! Almeidas! Quem me dera
Esse raio, essa ardente colubrina!
Esta infame patrulha conhecera
Que cousa é tratar mal a gente fina.
Mas para que é mexer na gente austera?
Descance em paz a máxima heroína.
Para a sôcos ficarem ensinados,
De Gibraltar só bastam dous soldados.

O tropego ancião já de cansado
Parava entre colerico, e sentido;
Bem que, a não se queixar, ioda calado,
Pelo cheiro mostrava estar ardido.
A aletria, que tinha inda pregado
N'elle o rosto, e lhe dava atento ouvido,
Como quem se levanta de um transporte,
Responde-lhe mais viva desta sorte:

«Tu, pai da sexta, e sabado, experiente
Tua fala fizeste, e sempre impressa
Dentro d'alma a terei: ingenuamente,
Não parece de quem não tem cabeça.
Comtudo a nossa causa é diferente:
Bacalháo, tu tens quem te favoreça:
Dão-te as mãos o azeite, e o vinagre,
E a mesa só te assentam por milagre. »
A cornuda, infernal peste do Norte,
Irmã podre da tosca medicina,
Triste carne, que vem depoi da morte,
Sofrer cruel martyrio em negra tina,
Penetrada também de magoa forte
Sahe da calda mais forte que resina,
E asquerosa, corrupta, e fedorenta,
N’esta voz á aletria se apresenta:

O teu pezar, vizinha, é verdadeiro;
É público, a nenhum de nós se esconde:
Mas tu pódes tornar ao companheiro:
Eu onde hei de ir buscai-o? Dize: onde?
Já co'a mão no nariz, pelo mão cheiro,
Enjoada a aletria lhe responde:
Aparta-te de mim, morte salgada!
E esse teu escorbuto não é nada?

Eis que o arroz co'a cevada no fardello
Vem-lhe atentos falar da parte esquerda:
É bem digno de pranto o teu desvelo
(Dizem) bem que é comum em nós a perda.
« Querem correr comigo' em paralelo?
(Lhes responde) Ora vão beber da merd.,
Tu arrimo commum das pobres festas,
E tu, doce ambição das magras bestas.

Que fiz eu? Nenhum d'estes é culpado!
Ambos me vêm de afeto verdadeiro.
Em suco de baleia recheiado
Sejas tu, negro phoca, cozinheiro.
Mas que! Lá me responde o enfarruscado
Apontando co'o dedo ao dispenseiro.
Ah! Que este ao capitão traz por es udo!
Ah! Que ele não responde! E réo de tudo.

Oh! Queira o forte impulso Neptunino
Não que as praias o vejam insepulto,
Mas que soffra cruel, p'ra seu ensino,
Em qualquer parte vergonhoso o insulto.
Nunca lhe mostre o céo rosto benino,
No vento sempre encontre incerto vulto;
Ou fraco em demasía, ou muito rijo,
Navegue sempre por marés de mijo.

Permite, vós, ó Gênios, a quem cabe
Da discórdia, e desgosto a infernal arte,
Se é solteiro, solteiro mesmo acabe,
Se é casado, a mulher d'elle se aparte:
Qual outro Menelao prove a que sabe
Um desquite despótico, um aparte;
Em terra sem remedia safira o damno,
Que no mar me permitisse desumano

Os deuses protectores da innocencia,
Vingadores severos da injustiça,
Que até dormindo prestam audiência
Ao suspiro interior, á voz submissa,
Como agora os ouvidos da clemência
Negariam aos brados da justiça?
Enquanto o justo voto llie diferem,
Outra pena mais propícia lhe conferem.
Inda falava: quando o mar desperta,
Acorda o pai Neptuno, Eolo acorda;
Um, e outro se põem co'ouvido alerta
A escutar os suspiros junto á borda.
Conhecido o motivo e descoberta
A causa; qual de raiva desacorda,
E qual por suas mãos prompta vingança
Vai tornar do delicto sem tardança.

Dá-se Maroto igual? Que aleivosia!
(Diz o mar, pelos ares escumando.)
Atrevido! Bregeiro! Co' a aletria?
Não conhece a aletria? (Isto berrando,
Dizia o vento.) E ambos á porfia
No navio coléricos saltando
A sôcos, cachações murros, sopapo,
Capitão, gente, emfim põem tudo em trapos.

Eu que do meu belixe a tudo attendo,
Pelas pragas do tempo desconfio.
Sento-me, abro o postigo: eis que vou vendo
O grão phoca correndo-lhe água em fio.
Torno á cama: e aos céo agradecendo
O favor de salvarem-me o navio,
A mim mesmo me digo já deitado:
Ora graças a Deus! Estou vingado.


GADELHA, José Gomes da Costa. “Os suspiros da aletria”. In: FILHO, Mello Morais (org.). Parnaso Brasileiro. Rio de Janeiro: B. L. Garnier, 1885. v. 1. p. 268-275.

 

Projeto de Pesquisa: Tradição e ruptura na poesia de senhor de engenho: imagens da mulher (FALE/ILC/UFPA)
Coordenadora: Profa. Dra. Angela Teodoro Grillo
Bolsista: Fabrícia Paraíso de Araújo (PIBIC/ UFPA)